Guilherme Augusto Rodrigues
Todos estavam reunidos para o jantar de sábado, como era de costume naquela casa. Sempre havia jantar, mas aos sábados ele era especial. A mesa, que tinha um lindo vaso de flores perfumadas no centro, era decorada com finos talheres de prata, a toalha branca e de um tecido fino e gostoso era bordada com desenhos de flores e frutas, os pratos eram de cerâmica francesa e taças de cristal e copos. A comida também era muito caprichada, o pai e mãe faziam-na com muito esmero. Ele tinha comentado, enquanto adicionava um tempero ao prato, que fazia alguns dias que não via mais nenhuma praga andando pela casa, se referindo aos ratos. Naquela noite, havia ensopado de carne e frango assado, temperados com as mais finas especiarias e ervas. Era realmente de encher os olhos e de salivar a boca. Se serviam e limpavam os beiços.
– Como sempre, papai. Está ótima! – disse o filho, pegando mais um pedaço de frango.
Engraçado, o garoto gostava muito dos jantares aos sábados, seus olhos brilhavam de ver a mesa de uma ponta a outra toda enfeitada. Igualmente se alegrava com as flores e não parava de cheirá-las. A cada noite parecia que já havia vivido antes aqueles jantares tão agradáveis e saborosos. A irmã também adorava e se identificava, mas preferia contemplar a noite e a natureza na companhia de insetos e animais.
A mãe enchia a taça de vinho e aproveitava para dizer:
– No final de semana que vem é a formatura do Waltinho, segunda-feira vamos comprar roupas para as crianças, querido. E quero comprar um presentinho para ele também.
– Meus netinhos vão ficar lindos! – disse sorrindo a avó.
A mãe olhava para a avó, que era sua mãe, com ódio. Nunca simpatizou com ela durante toda a vida, estava ali porque o marido gostava dela e seria bom para ela ficar perto dos netos mais jovens, dizia ele que a energia da juventude faria bem a ela, de fato a senhora parecia rejuvenescer a cada dia. As crianças também adoravam ter a avó por perto.
– Papai, posso pegar um pouquinho de vinho? – perguntou a filha.
– Só um pouquinho, filha. Na sua idade não faz bem ficar bebendo.
Anos atrás, nunca comentou com ninguém e tentava não demonstrar, mas tinha uma certa antipatia por sua filha, sabia que era errado e tentava se corrigir. Às vezes o ódio era tão grande que queria esganá-la até a morte. Quando isso acontecia, corria para muito longe sozinho, procurava se acalmar e refletir sobre o caso entre a natureza, no meio das árvores e passarinhos, respirar ar puro. E funcionava, o ambiente ameno e cheio de vida abastecia seu coração. Mudou quando a menina adoecera e quase morreu, percebeu que realmente a amava. Derrubou imensas lágrimas pelo corpo da filha, abraçados. A filha no entanto nunca havia demonstrado ódio algum pelo pai, sempre o amou.
– Posso também, papai? – aproveitou o embalo o filho, o pai apenas assentiu com a cabeça.
As crianças tomaram só um tiquinho de vinho, mas foi o suficiente para se chacoalharem de alegria e mostrarem um sorriso de orelha a orelha. Elas adoravam vinhos como ninguém, deixavam-no curtir na boca para saboreá-lo bem antes de engolir e cada gole era preciosíssimo já que tomavam muito pouco.
– Não se esqueça, querido, que segunda também é o último dia para pagar a escola das crianças – olhando brava rapidamente para a vó, que fazia um barulho desagradável para comer.
– Sim, não esquecerei. Puxa, que correria, nunca tinha deixado a escola para tão tarde.
O Pai
De repente, o pai caiu de cabeça no prato. Não sabia dizer quanto tempo ficou desacordado, pode ter sido alguns segundos ou horas. Mas já não estava em sua casa. Abriu os olhos e se encontrava em um pequeno aposento rústico de teto baixo e com pouca luz, que era iluminado por velas.
Não entendeu, se sentiu estranho, lembrava que minutos atrás estava jantando com sua família, mas também era como se não lembrasse. Logo a lembrança do jantar em família se esvaiu de sua mente. Agia quase que automaticamente, fazia o que tinha que fazer naquele momento e só. Sua face era fechada e pesada, não havia nenhum sinal de ter sorrido algum dia. Sua voz era forte e seca. Discutia com outros homens de igual aparência algo de como fazer uma forte fogueira e como controlá-la. Dava instruções, fizera muito isso, tinha prática.
Era tarde da noite e uma multidão se encontrava do lado de fora ansiosa com gritos de ódio e morte, desejando sangue como canibais famintos.
Algumas horas antes, quando ainda estava dia e não havia pessoas berrando lá fora, meia dúzia de homens preparavam o pátio. Passaram a tarde inteira cortando lenha, fincando toras no chão, limpando o terreno para a cerimônia. Por todos os cantos as pessoas já comentavam, estavam agitadas, ansiosas e sorridentes pelo grande acontecimento que viria.
Então, ao anoitecer, aquela multidão que esperava aflita foi ao êxtase, mas o ápice estava por vir, quando trouxeram as prisioneiras. “Filhas de Satanás!” “Demônios!” “Bruxas!” Eram algumas das frases ditas naquele momento.
Uma batida brusca na porta de madeira.
– Senhor, as bruxas já estão postas e amarradas.
– Todos prontos? Vamos –disse o pai, que agora era um carrasco ateador de fogo.
A multidão se abriu para que os homens passassem para o golpe final. Estavam com tochas ardentes. O pai, o carrasco ateador de fogo, olhou bem nos olhos da moça. Não parecia aflita, nem apavorada. Seu olhar era limpo, calmo, cheio de vida. Disse:
– Eu o perdoo. O senhor já sofreu demais. Dá pena olhar para você.
Sem uma palavra e lentamente, tremendo, ateou fogo no amontoado de lenhas nos pés da bela moça. Ela, antes de morrer feliz e com dignidade, teve a impressão de vê-lo derramar uma pequena lágrima por dentro da sua pobre alma. Mais seis mulheres morreram ali junto com ela.
Na sala, todos entraram em pavor, mas antes que alguém pudesse tomar alguma providência, chamar uma ambulância, a visão embaçou, se sentiram zonzos. E foi a vez do garoto cair com a cara no chão.
O Filho
Não sei dizer quanto tempo demorou, porém, agora estava em uma mesa rodeada de pessoas muito felizes e animadas que festejavam num acampamento, na clareira de uma floresta. Nem se lembrava do jantar. A noite estava fresquinha e animada. Uma diversidade de aromas suaves da mata úmida, da noite, das flores, das frutas, dos vinhos, de terra, pairava sobre o ambiente. A mesa, rústica e muito maior que a outra, estava cheia de comida, as pessoas conversavam alegremente, cantavam, comiam e bebiam.
O garoto, que agora era um homem da natureza das terras onde hoje se encontra a Europa quando ainda não se chamava Europa, se muniu de uvas, morangos, maças e abasteceu sua caneca do mais puro e suave vinho que já existiu. As frutas também eram muito suculentas, saborosas e puras. Hoje em dia não se acham mais frutas tão boas assim. Levantou-se e foi com sua esposa.
– Que moça mais linda! Minha querida! – deu um gostoso abraço e um beijo nela, uma linda e elegante moça de vestido verde, longo e rendado, que retribuiu o carinho com um sincero sorriso e acariciando a cabeça, desmanchando o cabelo; ele abraçou e afagou as cabecinhas também das suas crianças. – Crianças! Como é bom vê-las. Estão se divertindo? – antes de se juntar à banda para tocar harpa.
Enquanto tocava harpa, viu no céu sua estrela brilhar, aquela que tinha escolhido para si há muito tempo, a mais brilhante que encontrou, e às noites olhava sempre para ela. Uma leve brisa tocou seu rosto, sentiu o coração forte. Imaginou a imensidão do mundo e do universo quando eles ainda eram muito pequenos para o homem e se viu a viajar pelas terras, pelas montanhas, pelos vales, a atravessar rios, lagos e florestas. Nitidamente uma família jantava ao redor de uma mesa farta e bela como a sua numa casa tão grande e tão bela que nunca tinha visto igual.
As festas costumavam durar quase por toda a noite. Um povo realmente festivo e fraternal. Todos os dias eram festivos, com ceias abastecidas a frutas, vinhos, carnes e muita música, mas também de muito trabalho. Reverenciavam à natureza e os animais, os seres da floresta, os elementais da terra se juntavam para celebrar com eles. Todos em comunhão. Era possível sentir a energia que emanava daquele povo. Às vezes, se via um grande halo ao redor de onde eles estavam.
Havia uma fogueira onde se reuniam para dançar: crianças, mulheres, homens e seres da terra. Já era tarde, mas não tinha sinais de que a festa estava no fim. Um homem comum que não aprendeu a viver e a festejar assim, nem notaria a presença dos habitantes naturais da floresta.
O filho, que agora era um homem da natureza, se divertia, sorria como uma criança cantando, dançando, tocando. Adorava tocar os diversos instrumentos: harpa, alaúde, flauta, tambor, cítara e outros. Era uma numerosa banda com cerca de oito músicos, mas quase todos ali presentes tocavam algum instrumento.
A festa acabou quase com o dia amanhecendo com todos cansados, mas felizes com imensos sorrisos. Descansados, tinham muito o que fazer: as crianças estudavam, tinham aula sobre a natureza, o mundo, cultura, línguas, música, artes. Os homens e as mulheres ambos arrumavam o ambiente, o acampamento, cuidavam dos animais, caçavam e colhiam frutos. A terra ainda estava farta.
A Mãe
Caída sobre a mesa, de olhos fixos na avó (minutos antes poderia dizer que ela balbuciara uma palavra que deveria ser “mamãe”), a mãe acordou em uma pequena casa de pedra, muito simples. Era agora uma linda criança com uns dez, doze anos. Pelo seu olhar parecia ser sozinha, triste e medrosa.
– Garota – disse uma voz masculina muito severa – você precisa ainda apanhar muito para aprender a ter modos!
– Que fiz dessa vez, papai? – toda encolhida, encurvada e tremendo como uma corda de violão quando é tocada. – Por favor, não...
– Não interessa o que fez – disse o homem ainda mais com ódio. – Quando digo alguma coisa, não questione. Obedeça! E antes, você servirá o papai e depois tudo ficará mais feliz – suavizando a voz ríspida e com o olhar de cobiça.
Com força e brutalidade, agarrou o delicado bracinho da menina, machucando, quase quebrando. Rasgou o vestido da menina e a colocou deitada na mesa. Ela chorava demasiadamente, fechava os olhos desejando ser só um triste pesadelo, empertigada, sempre queria despertar logo desse pesadelo, mas, era real.
– Boa menina – dizia o homem molestador – boa menina.
No fim, acabou jogando a criança no canto do cômodo.
– Papai não vai bater em você. Hoje foi bom, está melhorando. Se fizer tudo direitinho, não haverá mais sofrimentos.
Ela sentia nojo daquele homem, não o considerava como seu pai. “É o pior castigo do mundo ter um pai como esse”, pensava a menina. Não aguentava olhá-lo e preferia a morte a essa vida desgraçada. Chorava encolhida na parede querendo sumir, emparedar-se. Se tivesse força suficiente, matá-lo-ia ali mesmo com uma paulada na cabeça ou com chutes.
A Filha
A filha estava caída imóvel próxima ao irmão... Estava no meio da floresta, em um pequeno acampamento com algumas barracas. Era uma linda manhã, um silêncio aconchegante e convidativo. Os raios do sol banhavam ternos a mata. Havia umas quinze pessoas, homens e mulheres, e decoravam o local para a cerimônia. Trabalhavam com muito carinho e felicidade e conversavam entre si com vozes suaves como a brisa. À noite seria festiva com o ritual de Samhain* tão esperado por aquele povo da natureza.
O altar estava quase terminado. Decorando-o, havia perfumadas flores de várias tonalidades e cores, exalavam um perfume sereno, velas de cores diferentes e uma diversidade de incensos um mais cheiroso que o outro. Havia muita vida ali.
Ao entardecer, quando haviam preparado o local para a festividade, homens e mulheres se encontravam em suas barracas se arrumando, trocando de roupa, se perfumando, dando os últimos retoques nas lindas vestimentas.
A filha, que agora era uma mulher da natureza, e seu povo pertenciam a um grupo de feiticeiros que amavam os campos, os animais, o céu, sol, lua e estrelas, rios, lagos, planícies, montanhas e tudo que esta farta terra poderia lhes dar. Eram também, assim como o povo de seu irmão, muito festivos, gostavam de uma boa ceia com músicas, vinhos e frutas e reverenciavam a natureza com rituais. Esses rituais nada tinham a ver com mortes, sacrifícios, profanações e demônios. Eram agradecimentos à natureza, à vida e aos deuses pela maravilhosa vida que possuíam.
À noite, fizeram uma grande fogueira e davam início à festividade, ao ritual de Samhain. Em volta da fogueira, organizaram-se em círculo para canalizar mais energia. Uma sacerdotisa comandava o ritual. Mas, pouco depois de darem início à cerimônia, os homens, que não entendem nada disso, atacaram de surpresa. Os feiticeiros da natureza correram para todos os lados, tentando fugir.
– Corram o mais rápido que podem! Escondam-se! – gritou um deles.
Assim tentaram, mas eram muitos homens caçando-os e estavam em notável desvantagem. Conseguiram capturar sete mulheres, incluindo a filha, e um homem que se debatia e conseguiu fugir, mas foi morto com tiros de espingarda, viram que daria muito trabalho levá-lo para a fogueira, o restante fugiu. É ainda mais difícil para as mulheres correrem com longos vestidos do que para os homens que só usavam túnicas. Os homens perversos e rudes amarraram-nas bem forte aos punhos, machucando-as, e juntas para que dificultasse a fuga. Pelo caminho, maltratavam e batiam nas prisioneiras. Foram presas em uma pequena cela suja e fedida. No dia seguinte seriam postas à fogueira. Para bruxos, “os adoradores de Satã”, como eram chamados pelos homens rudes e sem amor, não havia julgamento, nem direito à defesa. Aguardaram até a hora de serem queimadas, sem comida e sem água. Eram tratadas pior do que animais. Hereges.
Não houve resgate, não por egoísmo, desunião ou falta de amor, todos estavam profundamente sentidos com a captura, mas tentar um resgate acarretaria em mais mortes, mais sangue derramado para um grande povo. Seria realmente o fim para eles.
Durante o dia seguinte, alguns homens preparavam o terreno onde as feiticeiras seriam queimadas. A multidão comentava e aguardava ansiosa pelas execuções. Tudo pronto, em alguns minutos, estariam se contorcendo em chamas. Ao anoitecer, a multidão se espremia no local gritando muito e aguardando.
Uma batida forte na porta:
– Senhor, as bruxas já estão postas e amarradas.
– Todos prontos? Vamos –disse o líder e um dos homens executores com uma voz dura, fria.
A multidão gritava. “Queimem logo esses servos do demônio”, diziam uns. Frente a frente. Um homem de semblante pesado, rude, com uma tocha ardente em uma das mãos, do outro, uma jovem muito bela de olhar limpo, sereno e cheio de vida. Pai e filha. Olharam-se nos olhos, ela não parecia aflita, nem apavorada. Ele mantinha a cara fechada, cheia de ódio, sem vida.
– Eu o perdoo. O senhor já sofreu demais. Dá pena olhar para você – disse a filha, a jovem da natureza.
Lentamente, tremendo, ateou fogo e queimou a filha, que agora era uma mulher da natureza. Ela teve a impressão de vê-lo derramar uma pequena lágrima por dentro da sua pobre alma. Sete mulheres e um homem morreram felizes e com dignidade, certos de que fizeram sempre o bem e o melhor para todos.
*Samhain: a mais importante cerimônia celta, celebrada em 1 de novembro.
A Avó
A avó tinha a cabeça para trás apoiada sobre a cadeira, como se dormisse sentada. Chegou correndo em seu casebre de pedras, pisando secamente. A avó era um homem já de uma certa idade, de uns quarenta anos. Abriu a porta com uma pancada quase derrubando-a.
– Garota – disse com uma voz rouca a avó, que agora era um homem – você precisa ainda apanhar muito para aprender a ter modos!
– Que fiz dessa vez, papai? – perguntou uma linda garotinha encolhida, encurvada e tremendo como uma corda de violão quando é tocada. – Por favor, não...
– Não interessa o que fez – disse a avó, que agora era um homem, ainda mais com ódio. – Quando digo alguma coisa, não questione. Obedeça! E antes, você servirá o papai e depois tudo ficará mais feliz – suavizando a voz ríspida e com o olhar de cobiça.
Agarrou com força o delicado bracinho da menina, quase partindo-o. Rasgou o vestido da pobrezinha e colocou-a deitada sobre a mesa. A garotinha chorava e tremia muito, desejando despertar logo de um pesadelo. Infelizmente, era sua desgraçada vida que preferia mais a morte.
Juntas, mãe e filha, pai molestador e filha. A filha, ou mãe, que nunca simpatizara com a sua mãe, a avó, em toda a vida. Não havia perdoado e sempre alimentou seu ódio pela mãe.
– Boa menina – dizia a avó, que agora era o pai molestador, à sua filha, – boa menina.
Jogou contra a parede a criança dolorida e fraca.
– Papai não vai bater em você. Hoje foi bom, está melhorando. Se fizer tudo direitinho, não haverá mais sofrimentos.
O pai batia, maltratava, molestava a filha apenas para saciar sua incontrolável vontade, sua sede. Agia compulsivamente, sem freio, sem pensar. Não sei se é possível dizer se tinha amor pela filha ou se odiava, mas em momento algum fez um carinho, disse-lhe palavras amorosas. Sua esposa tinha morrido há muito tempo quando a filha ainda era um bebê. Não se pode dizer que existia amor entre os dois, ele batia nela, como batia na filha. E ela, a esposa, permanecera com ele por não ter escolha, ou ficava, ou morria apedrejada. Dia a após dia era assim: o pai batendo e abusando da filha.
Naquele sábado, estavam todos unidos novamente pelo destino ao redor de uma mesa de jantar, caídos, jogados, mortos.
2 comments:
Ácido. Gosto disso. Bom, muito bom.
Inacreditável! Sem palavras! Que construção narrativa interessante, que clímax, que final, que epifania...
Bela escolha de palavras, excelentes descrições de cenas... consigo sentir e ver a pequena filha e a avó/pai, metarmofoseando-se... Está de parabéns!
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