Friday, March 30, 2012

Evolução

Guilherme Rodrigues

          Ele se levantou, estava debaixo de uma imensa árvore. Ao redor havia uma vasta planície relvada e um lago. Um ambiente muito tranquilo, ficou por ali contemplando por um tempo o lago, as águas calmas, os animais bebericando e nadando. Uma manada de bisões corria por perto. A brisa fresca passava suavemente e desimpedida pelo local, farfalhando as gramíneas.
          Saiu andando, passou por vales, rios, montanhas e encontrou um cachorro, um amigo tão receptível a abanar o rabo. Rumaram adiante, logo depois, encontraram uma mulher. Ele, a mulher, o cachorro.
          Passaram a vagar por todo aquele vasto mundo. Estabeleceram-se perto de um rio, um local com algumas árvores frutíferas que os alimentariam por um período.
          Este homem e a mulher se comunicavam grunhindo, gritando um com o outro. Muito rudes. O cachorro tinha mais cordialidade que eles. Ele batia nela, ela revidava. Certo dia, copularam. Tiveram um filho. Foi uma grande surpresa para ambos. Não tinham trato, mesmo assim, a mulher dispunha de todo carinho que podia oferecer. O menino foi crescendo.
          Para se manterem alimentados, o homem colhia algumas frutas nas árvores, depois, por falta de alimentos, aprendeu a caçar, escolhia uma ave, um lagarto, qualquer bicho que servisse, até um búfalo que às vezes tinha algum problema, o mais frágil, facilitava a captura e o abate. Difícil era caçá-lo, raramente um êxito. Também pescava peixes com o uso de uma lança tosca de madeira.
          Demorou até que a comida do lugar acabasse. Foram andando novamente sem rumo. Ele, a mulher, o filho e o cachorro. Havia noites que fazia muito frio, eles se agasalhavam com peles de animais, geralmente de búfalo que eram bem felpudas e quentes. E se estabeleceram outra vez diante de um rio e algumas árvores frutíferas.
          Copularam novamente, agora veio uma menina. Eles adquiriram um pouco de experiência e cuidaram melhor da garota. Todos eles eram muito sujos, mas a garota era uma gracinha e encantava os olhos do pai e do irmãozinho. Eles aprenderam a brincar com a menina, ou melhor, ela os ensinara.
          Os irmãos cresceram juntos, inseparáveis, um ensinando o outro, aprendendo.
          As noites eram muito frias, passava toda a família unida próxima à tenda, um perto do outro ao redor da fogueira, se esquentando, conversando. O homem contava histórias aos filhos, à mulher, ao cachorro. Histórias que ele não sabia, não tinha vivido, mas parecia estar na sua lembrança, sobre animais que viravam homens, sobre viagens que os homens haviam feito, atravessando os mares, enfrentando tempestades, escalando montanhas, descobrindo novas terras, andando livremente por tudo, pois tudo era deles e assim viviam.
          Olhavam aquela imensidão de mundo, os animais, as plantas, as árvores, o céu e as estrelas, eles sabiam que havia algo muito maior que eles que administrava tudo. O qual resolveram chamar de Grande Espírito. Sabiam dos seres das florestas, dos mares, das chuvas e de tudo que os cercavam e reverenciavam-nos, agradeciam-nos todos os dias. Era algo intrínseco, não foram ensinados, não aprenderam, simplesmente sabiam.
          As crianças cresceram, tornaram-se adultas, tiveram filhos, seus filhos tiveram outros filhos e assim começaram uma tribo, uma família que surgiu do mesmo sangue, portanto, todos eram irmãos. Havia muito mais tendas. A aldeia crescia.
          Caminhando sozinho, o homem, certa vez, encontrou umas penas de águia, coruja, falcão e decidiu usá-las, pois assim estaria absorvendo a energia desses animais, pendurou no pescoço e na cabeça. Deitou-se para descansar à sombra duma árvore depois de um longo dia de trabalho na aldeia. Começou a sentir a terra, a árvore, a energia que elas emanavam. Sentiram-se apenas um. A Terra, a árvore, o céu passaram conhecimento e sabedoria a ele. Viu nitidamente em sua visão um lobo, olhos firmes, muito serenos, olhar penetrante, saiu de perto do homem, começou a correr com precisão, determinado, sabia o que fazia e sumiu no horizonte. O homem tornou-se mais forte, determinado e consciente.
          Voltou à tribo e pôde aconselhá-los melhor, a ensiná-los e a curá-los das enfermidades. Qualquer dúvida que tivessem, iam falar com o homem. Ele então virou um guia e também um tipo de líder, que estava na mesma altura dos demais. Passava sua sabedoria com satisfação e carinho.
          As noites eram festivas, eles cantavam, dançavam, tocavam seus tambores, chocalhos, flautas, em volta da grande fogueira. Sempre reverenciando algum deus ou todos eles.
          A tribo havia crescido bastante e eles continuavam suas peregrinações, montados a cavalos, quando a terra não estava mais tão farta. Alguns irmãos quiseram descobrir novos caminhos e não foram impedidos, mas foram aconselhados a ficar. Houve alguns choros e uma despedida um tanto dolorosa. Partiram. Novas tribos surgiram.
          Certo dia, pela manhã, após uma noite festiva, o homem saiu caminhar, foi até um precipício e sentou-se ali. Olhava todo o mundo lá embaixo, como as coisas eram pequenininhas e belas. Via tudo, quase além do horizonte, as pastagens, as montanhas e planícies. Corria uma manada de cavalos, cada cavalo era um pontinho visto de cima. Uma águia surgiu voando próximo a ele que contemplava calmamente, com regozijo. Ela voava com leveza, calma. Batia as asas uma, duas vezes e planava suavemente por longo tempo. Circulava a região ao redor do homem. Depois, dissipou-se na imensidão do céu.
          Muitos anos se passaram, toda a terra foi tomada por diversas tribos, algumas eram amigas, outras, infelizmente, inimigas. Todas elas surgiram de uma única tribo. Entretanto, algumas esqueceram-se da gratidão e da irmandade entre elas.
          As tribos tiveram que bolar meios de se protegerem, se defenderem e atacarem. Criaram armas melhores para as batalhas. As tribos tinham profundas baixas, morriam crianças, jovens e velhos. Muitas vezes, uma tribo inteira era dizimada.
          O homem viu com profundo desgosto tudo isso, sentia-se angustiado e infeliz pela primeira vez. Chorava. Mas nunca perdia a firmeza, era orientado pelos deuses e agia com sabedoria. Recobrava a alegria de outrora pois nada poderia abalá-lo, deveras. A tribo emanava imensa felicidade.
          Esteve diante de uma fera, duas vezes maior que ele, de princípio, assustou-se, depois, familiarizou-se. Nunca tinha visto um bicho daquele. Tinha pelos ao redor do pescoço e cabeça. Era um leão, o olhar fixo e assustador, suas enormes patas pisavam firme o chão, ou com tanta delicadeza que nem faziam barulho. O homem manteve-se calmo. Encararam-se encostando o nariz um no outro. O leão deu duas voltas pelo homem, fitou-o fixamente e em dois pulos desapareceu. O homem ficou ainda mais forte, uma grande energia correu-lhe o corpo. Estava pronto para todas as batalhas.
          Muitas batalhas aconteceram com tribos inimigas, ganharam muitas, perderam outras, quase morreram, mas resistiram e recomeçaram. Ajoelhados se levantaram fortificados. No entanto, em uma eles sucumbiram. Neste dia, o homem percebeu algo estranho no ar, um dia diferente. Sentiu umas pontadas no coração, uma sensação estranha percorria-lhe o corpo. Sabia que algo terrível poderia acontecer, porém, não imaginava o que era. Orientou para que toda a tribo ficasse em alerta.
          A Certa hora é que o mau presságio ocorreu. Eram os brancos correndo em cavalos negros, portando armas que nunca haviam visto, com uma trovoada iam matando um a um. Bravamente toda a tribo lutava e resistia. As crianças e as mulheres correram para se salvarem. O homem usou todo o seu poder, um branco veio em fúria para matá-lo, mas quando estava prestes a morrer, o grande leão saltou por trás dele e o defendeu, com uma patada, jogando longe o invasor, desfalecido, ensanguentado ao chão.
          O leão corria de um lado para o outro defendendo e protegendo a aldeia, atacando os invasores, mas, apesar da bravura do animal, a tribo sucumbiu diante do homem branco. A tribo estava dominada. O leão tombou em estrondo exaurido ao chão. Poeiras anuviaram o local.
          Os sobreviventes da tribo foram dominados. O pajé verteu lágrimas, tudo que havia construído com sua amada tribo acabara. Os dominadores aprisionaram o restante e forçaram-no à sua cultura. A tribo tentou negar, rebelar-se e até fugir, mas a cada fuga, perdia-se alguns irmãos, sem opção, foi convertida e educada à maneira dos conquistadores.
          Em pouco tempo o pajé e sua tribo viviam como os dominadores. Esqueceram-se dos dias que passaram juntos cantado, dançando, confraternizando. Esqueceram-se também dos tempos que apreciavam as paisagens, as planícies, as montanhas, o céu, as estrelas e a noite. Nada disso existia mais.
          O homem, que um dia admirou o imenso mundo e tudo o que ele lhe dava, esqueceu-se disso. Trabalhava duro. Devastava florestas em busca pedras preciosas. Queria enriquecer. Extraia tudo que lhe parecia valioso.
          Agora, todos eles viviam em comunidades, pequenos vilarejos, mais tarde, em casas e cidades.
          O homem então começou a fazer o que haviam feito com ele e sua amada tribo. Entrou em guerra, matava, roubava, escravizava e colonizava. Sem se abater. Sem uma lágrima derramar. Esqueceu-se de si. Para ele, os outros eram inferiores, eram selvagens, rudes, animais. Mereciam viver sob o domínio de pessoas mais evoluídas, mais sábias e estudadas. Aquela feição serena, calma, alegre, viva deu lugar a uma imagem dura, revoltada, mortiça. Seu olhar era profundo. Seus olhos, negros.
          O mundo então passou a ser apenas um lugar, uma árvore virou apenas uma árvore, a terra apenas terra, a chuva um tormento, os animais apenas animais. As estrelas se apagaram. A noite virou escuridão. O sol deixou de nascer e de se pôr. O vento parou de soprar. As manifestações da natureza tornaram-se lamentos. O homem começou a correr contra o tempo. E parecia só existir o chão que o sustentava.
          O antigo pajé se deu conta de que precisava estudar. Ele não sabia nada. Foi para a escola, foi para a faculdade, se formou. Aprendeu os macetes da vida, a lidar com economia, a lucrar. Tornou-se um administrador bem sucedido, um homem de negócios. Bem vestido, de terno e gravata.
          Apesar de tudo, sobrou-lhe tempo para conhecer uma garota e com ela se casou. Não sabia bem por que se casou com ela, mas estavam juntos. E logo vieram a falta de assunto, copularam, vieram filhos, desentendimentos, brigas, entretanto, permaneceram juntos – separados.
Sentia-se feliz.
          – Papai, me conta uma história para dormir?
          – Perdão, filho, querido, tenho que entregar isso amanhã. Fica para outro dia – ele não sabia contar histórias mesmo. O amanhã nunca chegava.
A vida moderna era isso. As doenças são coisas da vida. Ficou estressado. Pressão alta, depressão, colesterol, dores pelo corpo. Que aborrecimento eram os outros.
Desde então, a sociedade tinha evoluído muito. As cidades crescido muito. E poluído muito. Carros por todos os lados. Buzinas. Os rios estavam quase todos mortos. Desaguava parado um lodo de tristeza. O ar imóvel muito poluído. As pessoas corriam de um lado para o outro, muito atarefadas, ocupadas. Xingando um ao outro. As cidades tinham poucas áreas verdes. Animais muitos tinham se extinguido e os demais estavam prestes.
O homem havia ficado muito rico. Tinha carros, uma mansão e um monte de coisas, eletrodomésticos, computadores, que nem sabia muito bem mexer. Ele estava bem, podia esbanjar. Como ele havia alguns outros. Muita pobreza havia também. Pessoas morriam de fome. Mas ele não se importava. Ele estava bem. Seus filhos estavam em boas escolas. Não faltava comida em casa. E sua mulher podia ter joias, sapatos, roupas. Estava fazendo sua parte.
Ele sempre corria, trabalhava mais e mais, ficava rico a cada dia. Estava cansado, exausto. Faltava-lhe algo. Tudo não era o bastante. Sempre queria mais. Por ter, não tinha. E o que fazia no alto de um arranha-céu?
Foi quando viu uma águia voar e planar pelo céu. A bater suas enormes asas. Que beleza, pensou ele. De repente... Parou... E voltou para a beira do penhasco contemplar a águia em seu majestoso voo. Que silêncio. O vento chamar nos ouvidos. Que céu tão imenso e calmo! Que mundo! Olhou para os lados seu amigo canino, os filhos, a amada mulher e a tribo estavam reunidos ao redor. Seu coração foi imediatamente preenchido por um frescor.

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