Guilherme Rodrigues
Ele se levantou, estava debaixo de uma
imensa árvore. Ao redor havia uma vasta planície relvada e um lago.
Um ambiente muito tranquilo, ficou por ali contemplando por um tempo
o lago, as águas calmas, os animais bebericando e nadando. Uma
manada de bisões corria por perto. A brisa fresca passava suavemente
e desimpedida pelo local, farfalhando as gramíneas.
Saiu andando, passou por vales, rios,
montanhas e encontrou um cachorro, um amigo tão receptível a abanar
o rabo. Rumaram adiante, logo depois, encontraram uma mulher. Ele, a
mulher, o cachorro.
Passaram a vagar por todo aquele vasto
mundo. Estabeleceram-se perto de um rio, um local com algumas árvores
frutíferas que os alimentariam por um período.
Este homem e a mulher se comunicavam
grunhindo, gritando um com o outro. Muito rudes. O cachorro tinha
mais cordialidade que eles. Ele batia nela, ela revidava. Certo dia,
copularam. Tiveram um filho. Foi uma grande surpresa para ambos. Não
tinham trato, mesmo assim, a mulher dispunha de todo carinho que
podia oferecer. O menino foi crescendo.
Para se manterem alimentados, o homem
colhia algumas frutas nas árvores, depois, por falta de alimentos,
aprendeu a caçar, escolhia uma ave, um lagarto, qualquer bicho que
servisse, até um búfalo que às vezes tinha algum problema, o mais
frágil, facilitava a captura e o abate. Difícil era caçá-lo,
raramente um êxito. Também pescava peixes com o uso de uma lança
tosca de madeira.
Demorou até que a comida do lugar
acabasse. Foram andando novamente sem rumo. Ele, a mulher, o filho e
o cachorro. Havia
noites que fazia muito frio,
eles se agasalhavam com peles de animais, geralmente de búfalo que
eram bem felpudas e quentes. E se estabeleceram outra vez diante de
um rio e algumas árvores frutíferas.
Copularam novamente, agora veio uma
menina. Eles adquiriram um pouco de experiência e cuidaram melhor da
garota. Todos eles eram muito sujos, mas a garota era uma gracinha e
encantava os olhos do pai e do irmãozinho. Eles aprenderam a brincar
com a menina, ou melhor, ela os ensinara.
Os irmãos cresceram juntos, inseparáveis,
um ensinando o outro, aprendendo.
As noites eram muito frias, passava toda a
família unida próxima à tenda, um perto do outro ao redor da
fogueira, se esquentando, conversando. O homem contava
histórias aos filhos, à mulher, ao cachorro. Histórias que ele não
sabia, não tinha vivido, mas parecia estar na sua lembrança, sobre
animais que viravam homens, sobre viagens que os homens haviam feito,
atravessando os mares, enfrentando tempestades, escalando montanhas,
descobrindo novas terras, andando livremente por tudo, pois tudo era
deles e assim viviam.
Olhavam aquela imensidão de mundo, os
animais, as plantas, as árvores, o céu e as estrelas, eles sabiam
que havia algo muito maior que eles que administrava tudo. O qual
resolveram chamar de Grande Espírito. Sabiam dos seres das
florestas, dos mares, das chuvas e de tudo que os cercavam e
reverenciavam-nos, agradeciam-nos todos os dias. Era algo intrínseco,
não foram ensinados, não aprenderam, simplesmente sabiam.
As crianças cresceram, tornaram-se
adultas, tiveram filhos, seus filhos tiveram outros filhos e assim
começaram uma tribo, uma família que surgiu do mesmo sangue,
portanto, todos eram irmãos. Havia muito mais tendas. A aldeia
crescia.
Caminhando sozinho, o homem, certa vez,
encontrou umas penas de águia, coruja, falcão e decidiu usá-las,
pois assim estaria absorvendo a energia desses animais, pendurou no
pescoço e na cabeça. Deitou-se para descansar à sombra duma árvore
depois de um longo dia de trabalho na aldeia. Começou a sentir a
terra, a árvore, a energia que elas emanavam. Sentiram-se apenas um.
A Terra, a árvore, o céu passaram conhecimento e sabedoria a ele.
Viu nitidamente em sua visão um lobo, olhos firmes, muito serenos,
olhar penetrante, saiu de perto do homem, começou a correr com
precisão, determinado, sabia o que fazia e sumiu no horizonte. O
homem tornou-se mais forte, determinado e consciente.
Voltou à tribo e pôde aconselhá-los
melhor, a ensiná-los e a curá-los das enfermidades. Qualquer dúvida
que tivessem, iam falar com o homem. Ele então virou um guia e
também um tipo de líder, que estava na mesma altura dos demais.
Passava sua sabedoria com satisfação e carinho.
As noites eram festivas, eles cantavam,
dançavam, tocavam seus tambores, chocalhos, flautas, em volta da
grande fogueira. Sempre reverenciando algum deus ou todos eles.
A tribo havia crescido bastante e eles
continuavam suas peregrinações, montados a cavalos, quando a terra
não estava mais tão farta. Alguns irmãos quiseram descobrir novos
caminhos e não foram impedidos, mas
foram aconselhados a ficar.
Houve alguns choros e uma despedida um tanto dolorosa. Partiram.
Novas tribos surgiram.
Certo dia, pela manhã, após uma noite
festiva, o homem saiu caminhar, foi até um precipício e sentou-se
ali. Olhava todo o mundo lá embaixo, como as coisas eram
pequenininhas e belas. Via tudo, quase além do horizonte, as
pastagens, as montanhas e planícies. Corria uma manada de cavalos,
cada cavalo era um pontinho visto de cima. Uma águia surgiu voando
próximo a ele que contemplava calmamente, com regozijo. Ela voava
com leveza, calma. Batia as asas uma, duas vezes e planava suavemente
por longo tempo. Circulava a região ao redor do homem. Depois,
dissipou-se na imensidão do céu.
Muitos anos se passaram, toda a terra foi
tomada por diversas tribos, algumas eram amigas, outras,
infelizmente, inimigas. Todas elas surgiram de uma única tribo.
Entretanto, algumas esqueceram-se da gratidão e da irmandade entre
elas.
As tribos tiveram que bolar meios de se
protegerem, se defenderem e atacarem. Criaram armas melhores para as
batalhas. As tribos tinham profundas baixas, morriam crianças,
jovens e velhos. Muitas vezes, uma tribo inteira era dizimada.
O homem viu com profundo desgosto tudo
isso, sentia-se angustiado e infeliz pela primeira vez. Chorava. Mas
nunca perdia a firmeza, era orientado pelos deuses e agia com
sabedoria. Recobrava a alegria de outrora pois nada poderia abalá-lo,
deveras. A tribo emanava imensa felicidade.
Esteve diante de uma fera, duas vezes
maior que ele, de princípio, assustou-se, depois, familiarizou-se.
Nunca tinha visto um bicho daquele. Tinha pelos ao redor do pescoço
e cabeça. Era um leão, o olhar fixo e assustador, suas enormes
patas pisavam firme o chão, ou com tanta delicadeza que nem faziam
barulho. O homem manteve-se calmo. Encararam-se encostando o nariz um
no outro. O leão deu duas voltas pelo homem, fitou-o fixamente e em
dois pulos desapareceu. O homem ficou ainda mais forte, uma grande
energia correu-lhe o corpo. Estava pronto para todas as batalhas.
Muitas batalhas aconteceram com tribos
inimigas, ganharam muitas, perderam outras, quase morreram, mas
resistiram e recomeçaram. Ajoelhados se levantaram fortificados. No
entanto, em uma eles sucumbiram. Neste dia, o homem percebeu algo
estranho no ar, um dia diferente. Sentiu umas pontadas no coração,
uma sensação estranha percorria-lhe o corpo. Sabia que algo
terrível poderia acontecer, porém, não imaginava o que era.
Orientou para que toda a tribo ficasse em alerta.
A Certa hora é que o mau presságio
ocorreu. Eram os brancos correndo em cavalos negros, portando armas
que nunca haviam visto, com uma trovoada iam matando um a um.
Bravamente toda a tribo lutava e resistia. As crianças e as mulheres
correram para se salvarem. O homem usou todo o seu poder, um branco
veio em fúria para matá-lo, mas quando estava prestes a morrer, o
grande leão saltou por trás dele e o defendeu, com uma patada,
jogando longe o invasor, desfalecido, ensanguentado ao chão.
O leão corria de um lado para o outro
defendendo e protegendo a aldeia, atacando os invasores, mas, apesar
da bravura do animal, a tribo sucumbiu diante do homem branco. A
tribo estava dominada. O leão tombou em estrondo exaurido ao chão.
Poeiras anuviaram o local.
Os sobreviventes da tribo foram dominados.
O pajé verteu lágrimas, tudo que havia construído com sua amada
tribo acabara. Os dominadores aprisionaram o restante e forçaram-no
à sua cultura. A tribo tentou negar, rebelar-se e até fugir, mas a
cada fuga, perdia-se alguns irmãos, sem opção, foi convertida e
educada à maneira dos conquistadores.
Em pouco tempo o pajé e sua tribo viviam
como os dominadores. Esqueceram-se dos dias que passaram juntos
cantado, dançando, confraternizando. Esqueceram-se também dos
tempos que apreciavam as paisagens, as planícies, as montanhas, o
céu, as estrelas e a noite. Nada disso existia mais.
O homem, que um dia admirou o imenso mundo
e tudo o que ele lhe dava, esqueceu-se disso. Trabalhava duro.
Devastava florestas em busca pedras preciosas. Queria enriquecer.
Extraia tudo que lhe parecia valioso.
Agora, todos eles viviam em comunidades,
pequenos vilarejos, mais tarde, em casas e cidades.
O homem então começou a fazer o que
haviam feito com ele e sua amada tribo. Entrou em guerra, matava,
roubava, escravizava e colonizava. Sem se abater. Sem uma lágrima
derramar. Esqueceu-se de si. Para ele, os outros eram inferiores, eram
selvagens, rudes, animais. Mereciam viver sob o domínio de pessoas
mais evoluídas, mais sábias e estudadas. Aquela feição serena, calma, alegre,
viva deu lugar a uma imagem dura, revoltada, mortiça. Seu olhar era
profundo. Seus olhos, negros.
O mundo então passou a ser apenas um
lugar, uma árvore virou apenas uma árvore, a terra apenas terra, a
chuva um tormento, os animais apenas animais. As estrelas se
apagaram. A noite virou escuridão. O sol deixou de nascer e de se
pôr. O vento parou de soprar. As manifestações da natureza
tornaram-se lamentos. O homem começou a correr contra o tempo. E
parecia só existir o chão que o sustentava.
O antigo pajé se deu conta de que
precisava estudar. Ele não sabia nada. Foi para a escola, foi para a
faculdade, se formou. Aprendeu os macetes da vida, a lidar com
economia, a lucrar. Tornou-se um administrador bem sucedido, um homem
de negócios. Bem vestido, de terno e gravata.
Apesar de tudo, sobrou-lhe tempo para
conhecer uma garota e com ela se casou. Não sabia bem por que se
casou com ela, mas estavam juntos. E logo vieram a falta de assunto,
copularam, vieram filhos, desentendimentos, brigas, entretanto,
permaneceram juntos – separados.
Sentia-se feliz.
– Papai, me conta uma história para
dormir?
– Perdão, filho, querido, tenho que
entregar isso amanhã. Fica para outro dia – ele não sabia contar
histórias mesmo. O amanhã nunca chegava.
A vida moderna era isso. As doenças são
coisas da vida. Ficou estressado. Pressão alta, depressão,
colesterol, dores pelo corpo. Que aborrecimento eram os outros.
Desde então, a sociedade tinha evoluído
muito. As cidades crescido muito. E poluído muito. Carros por todos
os lados. Buzinas. Os rios estavam quase todos mortos. Desaguava
parado um lodo de tristeza. O ar imóvel muito poluído. As pessoas
corriam de um lado para o outro, muito atarefadas, ocupadas. Xingando
um ao outro. As cidades tinham poucas áreas verdes. Animais muitos
tinham se extinguido e os demais estavam prestes.
O homem havia ficado muito rico. Tinha
carros, uma mansão e um monte de coisas, eletrodomésticos,
computadores, que nem sabia muito bem mexer. Ele estava bem, podia
esbanjar. Como ele havia alguns outros. Muita pobreza havia também.
Pessoas morriam de fome. Mas ele não se importava. Ele estava bem.
Seus filhos estavam em boas escolas. Não faltava comida em casa. E
sua mulher podia ter joias, sapatos, roupas. Estava fazendo sua
parte.
Ele sempre corria, trabalhava mais e mais,
ficava rico a cada dia. Estava cansado, exausto. Faltava-lhe algo. Tudo não era o bastante. Sempre queria mais. Por ter, não tinha. E
o que fazia no alto de um arranha-céu?
Foi quando viu uma águia voar e planar
pelo céu. A bater suas enormes asas. Que beleza, pensou ele. De
repente... Parou... E voltou para a beira do penhasco contemplar a
águia em seu majestoso voo. Que silêncio. O vento chamar nos
ouvidos. Que céu tão imenso e calmo! Que mundo! Olhou para os lados seu amigo canino, os filhos, a amada mulher e a tribo estavam reunidos ao redor. Seu coração foi imediatamente preenchido por um frescor.
No comments:
Post a Comment