Guilherme Augusto Rodrigues
Que época triste é a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo. - Einstein
Que época triste é a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo. - Einstein
Aqui
no Brasil, e talvez em outros países, há um culto, uma veneração
e uma sacralização pela norma culta, a norma padrão, ensinada
exaustivamente e difundida por professores, gramáticos, pelo povo
dito “culto” e pelos meios de comunicação. Essa veneração
propagada há muitos anos cria um pensamento equivocado de que aqui
no nosso país não se fala bem o português, que brasileiro não
sabe falar português, que saber o idioma é privilégio de poucos.
Ideias como essas são diariamente repetidas.
Segundo
Marta Scherre (2005, p. 42-43): “Confunde-se
gramática normativa com língua. Esquece-se que uma gramática é
normalmente a codificação de uma norma-padrão escrita com base em
textos de escritores consagrados”.
A gramática demora muito para aceitar como correta uma nova forma
que apareceu faz tempo na língua falada.
A
língua falada, por sua vez, ao contrário da gramática, é
dinâmica, ocorrendo mudanças em curtos períodos, em poucos anos, e
também com a mídia e as novelas que exercem grande influência na
linguagem do brasileiro; os avanços tecnológicos e a introdução
cada vez mais presente de palavras estrangeiras, sobretudo inglesas,
no nosso cotidiano contribuem significativamente para essa
aceleração. Explica Scherre:
“A
língua real – sistema transmitido de geração em geração em
circunstâncias naturais – é de riqueza e de complexidade ímpares,
que ainda se deixou descrever nem explicar, na sua totalidade, pelos
linguistas mais brilhantes”.
A
essa forma diferente de se expressar dá-se o nome de variantes
linguísticas. Maria
Cecília
Mollica
(2003,
p.10)
explica:
Entendemos
então
por
variantes
as
diversas
formas
alternativas
que
configuram
um
fenômeno
variável,
tecnicamente
chamado
de
variável
dependente.
A
concordância
entre
o
verbo
e
o
sujeito,
por
exemplo,
é
uma
variável
lingüística
(ou
um
fenômeno
variável),
pois
se
realiza
através
de
duas
variantes,
duas
alternativas
possíveis
e
semanticamente
equivalentes:
a
marca
de
concordância
no
verbo
ou
a
ausência
da
marca
de
concordância.
A veneração pela norma padrão, corroborada por professores e gramáticos que defendem a concepção de certo e errado, contribui para o preconceito linguístico.
O
preconceito linguístico surge do desprezo pelas variantes não
descritas na gramática normativa. Além disso, desconsideram e
fecham os olhos para elas. A língua falada nunca será igual a
língua escrita. Por exemplo, a gramática não admite pronome
oblíquo no início de frase, deveríamos dizer: Empreste-me
o lápis,
mas dizemos: Me
empresta o lápis.
Além do pronome oblíquo em posição inicial de frase, mudamos,
muitas vezes, o verbo da terceira para a segundo pessoa do singular,
o tu
que só existe em algumas poucas regiões do Brasil. Outro exemplo é
a marca de plural que não ocorre em todos os elementos da frase,
muito frequente ouvimos: os
menino joga bola,
em vez de: os
meninos jogam bola.
Marta
Scherre se manifesta contra o preconceito linguístico:
Para
mim, é tão ou mais cruel do que o preconceito de religião, cor,
raça, gênero e classe social. Como cidadã brasileira, espero que
haja um dia leis contra o preconceito lingüístico, para que
comportamentos desta natureza sejam passíveis de julgamentos legais.
Pessoa alguma pode ser desrespeitada pela língua que fala”. (2005,
p. 40)
Quando
se faz preconceito linguístico, não está apenas desprezando a
linguagem, também está desvalorizando a classe social, o ambiente,
a cor, raça do falante. Os leigos, pelo pouco conhecimento que têm
sobre a língua, inconscientemente fazem o preconceito linguístico e
embarcam no coro dos mais tradicionalistas.
Mário
Perini (2003, p. 35-36) em seu livro Sofrendo a Gramática argumenta
que há duas línguas em vigor: a que se aprende na escola e a que
falamos. O capítulo “As duas línguas do Brasil” vem
acompanhado de uma pergunta: “Qual é mesmo a língua que
falamos?”, e nas páginas adiantes responde:
Não,
o português (que aparece nos textos escritos) não é a nossa língua
materna. A língua que aprendemos com nossos pais, irmãos e avós é
a mesma que falamos, mas não é a que escrevemos […] Em outras
palavras, há duas línguas no Brasil: uma que se escreve (e que
recebe o nome de 'português'); e outra que se fala (que é tão
desprezada que nem tem nome). E é essa última que é a língua
materna dos brasileiros; a outra ('português') tem de ser aprendida
na escola, e a maior parte da população nunca chega a dominá-la
adequadamente. (supressão nossa)
Mário
Perini (2003) continua a argumentar que essas duas línguas têm cada
uma seu domínio próprio e uma não interfere na outra. Além disso,
o vernáculo, como ele nomeia a língua oral, se usa informalmente e
em certos textos escritos, como peças de teatro e novelas, onde é
necessária uma maior familiarização com o seu público. E o
português, a língua escrita, é usada em textos formais e só é
usado em algumas situações como discursos de formatura ou de posse
em cargos públicos.
Sírio
Possenti
(2008)
aponta
dois
fatos
importantes:
a)
todas
as
línguas
variam,
não
existe
sociedade
ou
comunidade
em
que
seus
falantes
falem
igualmente
da
mesma
maneira;
b)
a
variedade
linguística
é
resultado
da
variedade
social,
como
em
todas
as
sociedades
há
algum
tipo
de
diferença
social
ou
de
papel
entre
pessoas
ou
grupos,
as
diferenças
aparecem
na
língua.
Em
todas
as
sociedades
existem
variações
da
língua.
E
que
essas
diferenças
linguísticas
não
são
por
acaso,
existe
um
porquê.
Os
principais
motivos,
para
Sírio
Possenti
(2008),
para
essa
variedade
são:
fatores
geográficos,
a
classe,
a
idade,
o
sexo,
a
etnia,
a
profissão
etc.
Pessoas
de
regiões
diferentes
haverão
de
ter
traços
e
particularidades
na
fala
diferentes.
Pessoas
de
classes
sociais
diferentes
falarão
de
modo
diferente.
Crianças
falam
como
crianças,
jovens
como
jovens
e
idosos
como
idosos.
As
variantes não é só privilégio do português brasileiro, no
português europeu, por exemplo, também ocorre. Segundo
estudos de Guedes e Berlinck (2006), formas relacionadas normalmente
à baixa escolaridade dos falantes são encontradas também na fala
de estudantes universitários, tanto no Brasil como em Portugal. “Em
Portugal,
por
exemplo,
formas
como
a
gente
vamos,
a
gente
estudamos,
mais
pequeno
são
correntes
entre
os
falantes
cultos.”
(GUEDES;
BERLINCK,
2006,
p.
1475,
grifo
dos
autores
e
grifo
nosso,
respectivamente.)
Tal
afirmação
é
sobre
a
língua
falada
em
Euriceira,
na
costa
Atlântica,
e
Odeleite,
próxima
à
divisa
da
Espanha,
ambos em Portugal, compostas
por
uma
população
analfabeta
ou
de
mediana
escolarização,
que trabalha
na
localidade
e
é
natural
da
e
estudada
na
região.
Guedes
e
Berlinck
(2006,
p.
1479),
concluíram
que:
“[...]
o
uso
dos
clíticos
em
posição
de
ênclise
ou
próclise
é
semelhante
quando
se
compara
o
Português
Europeu
com
o
Brasileiro,
pois
ambos
compartilham
em
vários
casos
as
mesmas
possibilidades
de
colocação
pronominal.
Neste
sentido,
aparentemente
não
se
pode
falar
em
duas
gramáticas
distintas,
mas
de
uma
organização
sintática
comum
em
que
se
compartilha
em
maior
ou
menor
grau
a
mesma
gramática.”
(GUEDES
e
BERLINCK,
2006,
p.
1479)
A
diferença
está
em
frequência
ou
preferência
de
uso.
No
Português
Brasileiro
há
uma
generalização
pelo
uso
da
próclise,
enquanto
que
no
Português
Europeu
a
ênclise
é
preferida
(GUEDES
e
BERLINCK,
2006).
A
gramática é a disciplina que poucas pessoas dominam; os alunos, por
exemplo, passam os anos escolares aprendendo, mas nunca aprendem de
fato. Um pensamento difundido pelos professores é que o estudo de
gramática proporcionará o domínio da língua, a ler e escrever
melhor. Um exemplo de que não é verdade esse argumento é que um
dos melhores escritores brasileiros da atualidade, Luís Fernando
Veríssimo, não sabe gramática, como ele mesmo diz na sua crônica
“O Gigolô das Palavras” (1996): “Sempre fui péssimo em
Português”. Ele argumenta que
a
linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve
ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras
básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as
outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de
princípios.
Logo
em seguida diz: “Escrever
bem é escrever claro, não necessariamente certo”.
Se
não é preciso saber gramática normativa para escrever bem, como
diz Veríssimo, então como podemos aprender a escrever bem? Perini
(2003, p. 55) responde: “A gente aprende a escrever bem escrevendo,
lendo, relendo e reescrevendo”. É prática, treino, assim como um
esportista fica bom no esporte que pratica.
E
por que devemos aprender e estudar gramática? “Em uma palavra,
deve-se estudar gramática para saber mais sobre o mundo, não para
aplicá-la à solução de problemas práticos tais como ler ou
escrever melhor” (Perini, 2003).
“Em
verdade, não se ensina língua portuguesa, porque não se pode
ensinar o que já se sabe. Ensina-se, sim, gramática normativa de
língua portuguesa, escrita da língua portuguesa ou leitura em
língua portuguesa, mas não se ensina língua portuguesa” (MATTOS
E SILVA: 2004; SILVA: 1994, apud Marta Scherre).
Marcos
Bagno (2006, p. 130) faz uma ressalva sobre o papel do professor
Uma
das
principais
tarefas
do
professor
de
língua
é
conscientizar
seu
aluno
de
que
a
língua
é
como
um
grande
guarda-roupa,
onde
é
possível
encontrar
todo
tipo
de
vestimenta.
Ninguém
vai
só
de
maiô
fazer
compras
num
shopping-center,
nem
vai
entrar
na
praia,
num
dia
de
sol
quente,
usando
terno
de
lã,
chapéu
de
feltro
e
luvas...
Bagno
orienta sobre a flexibilidade que devemos ter ao nos expressarmos:
“usar
a
língua,
tanto
na
modalidade
oral
como
na
escrita,
é
encontrar
o
ponto
de
equilíbrio
entre
dois
eixos:
o
da
adequabilidade
e
o
da
aceitabilidade”
[grifo
do
autor].
Ninguém
está desprezando a gramática normativa e ninguém é contra ela.
Sabemos sim que ler, compreender, se expressar e escrever bem é
importante para todos os cidadãos. Defendemos que o ensino da
gramática deve ser revisto. Se reconhecermos que existem várias
formas de se falar português e nos propusermos a analisá-las junto
com o estudo crítico e consciente da norma culta, entendemos que
ficará mais fácil tanto para o educador quanto para os estudantes.
Valorizando os múltiplos falares, os estudantes podem apreciar o
estudo do nosso idioma e usem-no com mais desenvoltura e equilíbrio.
É
mais fácil e elegante ter um “jogo de cintura” ao conversamos
com outras pessoas do que ridicularizá-las e ofendê-las pelo modo
como falam. Marta Scherre enfatiza a importância e a ação que
devemos ter perante a veiculação da Sociolinguística e combate ao
preconceito: “reitero a colocação de que os estudiosos da
linguagem, em especial os sociolingüistas, precisam discutir de
forma mais sistemática e mais incisiva todas as situações de
preconceito lingüístico, especialmente as veiculadas pela mídia”.
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VERÍSSIMO,
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Gigolô das Palavras.
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