Thursday, August 16, 2012

Norma culta, variações linguísticas e o preconceito

Guilherme Augusto Rodrigues

Que época triste é a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo. - Einstein

Aqui no Brasil, e talvez em outros países, há um culto, uma veneração e uma sacralização pela norma culta, a norma padrão, ensinada exaustivamente e difundida por professores, gramáticos, pelo povo dito “culto” e pelos meios de comunicação. Essa veneração propagada há muitos anos cria um pensamento equivocado de que aqui no nosso país não se fala bem o português, que brasileiro não sabe falar português, que saber o idioma é privilégio de poucos. Ideias como essas são diariamente repetidas.
Segundo Marta Scherre (2005, p. 42-43): “Confunde-se gramática normativa com língua. Esquece-se que uma gramática é normalmente a codificação de uma norma-padrão escrita com base em textos de escritores consagrados”. A gramática demora muito para aceitar como correta uma nova forma que apareceu faz tempo na língua falada.
A língua falada, por sua vez, ao contrário da gramática, é dinâmica, ocorrendo mudanças em curtos períodos, em poucos anos, e também com a mídia e as novelas que exercem grande influência na linguagem do brasileiro; os avanços tecnológicos e a introdução cada vez mais presente de palavras estrangeiras, sobretudo inglesas, no nosso cotidiano contribuem significativamente para essa aceleração. Explica Scherre:
A língua real – sistema transmitido de geração em geração em circunstâncias naturais – é de riqueza e de complexidade ímpares, que ainda se deixou descrever nem explicar, na sua totalidade, pelos linguistas mais brilhantes”.
A essa forma diferente de se expressar dá-se o nome de variantes linguísticas. Maria Cecília Mollica (2003, p.10) explica:

Entendemos então por variantes as diversas formas alternativas que configuram um fenômeno variável, tecnicamente chamado de variável dependente. A concordância entre o verbo e o sujeito, por exemplo, é uma variável lingüística (ou um fenômeno variável), pois se realiza através de duas variantes, duas alternativas possíveis e semanticamente equivalentes: a marca de concordância no verbo ou a ausência da marca de concordância.

A veneração pela norma padrão, corroborada por professores e gramáticos que defendem a concepção de certo e errado, contribui para o preconceito linguístico.
O preconceito linguístico surge do desprezo pelas variantes não descritas na gramática normativa. Além disso, desconsideram e fecham os olhos para elas. A língua falada nunca será igual a língua escrita. Por exemplo, a gramática não admite pronome oblíquo no início de frase, deveríamos dizer: Empreste-me o lápis, mas dizemos: Me empresta o lápis. Além do pronome oblíquo em posição inicial de frase, mudamos, muitas vezes, o verbo da terceira para a segundo pessoa do singular, o tu que só existe em algumas poucas regiões do Brasil. Outro exemplo é a marca de plural que não ocorre em todos os elementos da frase, muito frequente ouvimos: os menino joga bola, em vez de: os meninos jogam bola.
Marta Scherre se manifesta contra o preconceito linguístico:

Para mim, é tão ou mais cruel do que o preconceito de religião, cor, raça, gênero e classe social. Como cidadã brasileira, espero que haja um dia leis contra o preconceito lingüístico, para que comportamentos desta natureza sejam passíveis de julgamentos legais. Pessoa alguma pode ser desrespeitada pela língua que fala”. (2005, p. 40)

Quando se faz preconceito linguístico, não está apenas desprezando a linguagem, também está desvalorizando a classe social, o ambiente, a cor, raça do falante. Os leigos, pelo pouco conhecimento que têm sobre a língua, inconscientemente fazem o preconceito linguístico e embarcam no coro dos mais tradicionalistas.
Mário Perini (2003, p. 35-36) em seu livro Sofrendo a Gramática argumenta que há duas línguas em vigor: a que se aprende na escola e a que falamos. O capítulo “As duas línguas do Brasil” vem acompanhado de uma pergunta: “Qual é mesmo a língua que falamos?”, e nas páginas adiantes responde:

Não, o português (que aparece nos textos escritos) não é a nossa língua materna. A língua que aprendemos com nossos pais, irmãos e avós é a mesma que falamos, mas não é a que escrevemos […] Em outras palavras, há duas línguas no Brasil: uma que se escreve (e que recebe o nome de 'português'); e outra que se fala (que é tão desprezada que nem tem nome). E é essa última que é a língua materna dos brasileiros; a outra ('português') tem de ser aprendida na escola, e a maior parte da população nunca chega a dominá-la adequadamente. (supressão nossa)

Mário Perini (2003) continua a argumentar que essas duas línguas têm cada uma seu domínio próprio e uma não interfere na outra. Além disso, o vernáculo, como ele nomeia a língua oral, se usa informalmente e em certos textos escritos, como peças de teatro e novelas, onde é necessária uma maior familiarização com o seu público. E o português, a língua escrita, é usada em textos formais e só é usado em algumas situações como discursos de formatura ou de posse em cargos públicos.
Sírio Possenti (2008) aponta dois fatos importantes: a) todas as línguas variam, não existe sociedade ou comunidade em que seus falantes falem igualmente da mesma maneira; b) a variedade linguística é resultado da variedade social, como em todas as sociedades algum tipo de diferença social ou de papel entre pessoas ou grupos, as diferenças aparecem na língua. Em todas as sociedades existem variações da língua. E que essas diferenças linguísticas não são por acaso, existe um porquê.
Os principais motivos, para Sírio Possenti (2008), para essa variedade são: fatores geográficos, a classe, a idade, o sexo, a etnia, a profissão etc. Pessoas de regiões diferentes haverão de ter traços e particularidades na fala diferentes. Pessoas de classes sociais diferentes falarão de modo diferente. Crianças falam como crianças, jovens como jovens e idosos como idosos.
As variantes não é só privilégio do português brasileiro, no português europeu, por exemplo, também ocorre. Segundo estudos de Guedes e Berlinck (2006), formas relacionadas normalmente à baixa escolaridade dos falantes são encontradas também na fala de estudantes universitários, tanto no Brasil como em Portugal. “Em Portugal, por exemplo, formas como a gente vamos, a gente estudamos, mais pequeno são correntes entre os falantes cultos.(GUEDES; BERLINCK, 2006, p. 1475, grifo dos autores e grifo nosso, respectivamente.) Tal afirmação é sobre a língua falada em Euriceira, na costa Atlântica, e Odeleite, próxima à divisa da Espanha, ambos em Portugal, compostas por uma população analfabeta ou de mediana escolarização, que trabalha na localidade e é natural da e estudada na região.
Guedes e Berlinck (2006, p. 1479), concluíram que:

[...] o uso dos clíticos em posição de ênclise ou próclise é semelhante quando se compara o Português Europeu com o Brasileiro, pois ambos compartilham em vários casos as mesmas possibilidades de colocação pronominal. Neste sentido, aparentemente não se pode falar em duas gramáticas distintas, mas de uma organização sintática comum em que se compartilha em maior ou menor grau a mesma gramática.(GUEDES e BERLINCK, 2006, p. 1479)

A diferença está em frequência ou preferência de uso. No Português Brasileiro uma generalização pelo uso da próclise, enquanto que no Português Europeu a ênclise é preferida (GUEDES e BERLINCK, 2006).
A gramática é a disciplina que poucas pessoas dominam; os alunos, por exemplo, passam os anos escolares aprendendo, mas nunca aprendem de fato. Um pensamento difundido pelos professores é que o estudo de gramática proporcionará o domínio da língua, a ler e escrever melhor. Um exemplo de que não é verdade esse argumento é que um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, Luís Fernando Veríssimo, não sabe gramática, como ele mesmo diz na sua crônica “O Gigolô das Palavras” (1996): “Sempre fui péssimo em Português”. Ele argumenta que

a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.

Logo em seguida diz: “Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”.
Se não é preciso saber gramática normativa para escrever bem, como diz Veríssimo, então como podemos aprender a escrever bem? Perini (2003, p. 55) responde: “A gente aprende a escrever bem escrevendo, lendo, relendo e reescrevendo”. É prática, treino, assim como um esportista fica bom no esporte que pratica.
E por que devemos aprender e estudar gramática? “Em uma palavra, deve-se estudar gramática para saber mais sobre o mundo, não para aplicá-la à solução de problemas práticos tais como ler ou escrever melhor” (Perini, 2003).
“Em verdade, não se ensina língua portuguesa, porque não se pode ensinar o que já se sabe. Ensina-se, sim, gramática normativa de língua portuguesa, escrita da língua portuguesa ou leitura em língua portuguesa, mas não se ensina língua portuguesa” (MATTOS E SILVA: 2004; SILVA: 1994, apud Marta Scherre).
Marcos Bagno (2006, p. 130) faz uma ressalva sobre o papel do professor

Uma das principais tarefas do professor de língua é conscientizar seu aluno de que a língua é como um grande guarda-roupa, onde é possível encontrar todo tipo de vestimenta. Ninguém vai de maiô fazer compras num shopping-center, nem vai entrar na praia, num dia de sol quente, usando terno de lã, chapéu de feltro e luvas...

Bagno orienta sobre a flexibilidade que devemos ter ao nos expressarmos: “usar a língua, tanto na modalidade oral como na escrita, é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos: o da adequabilidade e o da aceitabilidade[grifo do autor].
Ninguém está desprezando a gramática normativa e ninguém é contra ela. Sabemos sim que ler, compreender, se expressar e escrever bem é importante para todos os cidadãos. Defendemos que o ensino da gramática deve ser revisto. Se reconhecermos que existem várias formas de se falar português e nos propusermos a analisá-las junto com o estudo crítico e consciente da norma culta, entendemos que ficará mais fácil tanto para o educador quanto para os estudantes. Valorizando os múltiplos falares, os estudantes podem apreciar o estudo do nosso idioma e usem-no com mais desenvoltura e equilíbrio.
É mais fácil e elegante ter um “jogo de cintura” ao conversamos com outras pessoas do que ridicularizá-las e ofendê-las pelo modo como falam. Marta Scherre enfatiza a importância e a ação que devemos ter perante a veiculação da Sociolinguística e combate ao preconceito: “reitero a colocação de que os estudiosos da linguagem, em especial os sociolingüistas, precisam discutir de forma mais sistemática e mais incisiva todas as situações de preconceito lingüístico, especialmente as veiculadas pela mídia”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGNO, M. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. 41 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

________, M. A Língua de Eulália: novela sociolingüística. 14 ed. São Paulo: Contexto, 2005.
GUEDES, M.; BERLINCK, R. A. O Que os Falares de Odeleite e Ericeira Têm a Dizer Sobre o Português do Brasil?. Estudos Lingüísticos (São Paulo), v. 35, p. 1473-1481, 2006.

MOLLICA, M. C. Introdução à Sociolingüística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo, Contexto, 2007.

PERINI, M. A. Sofrendo a Gramática. 3 ed. São Paulo: Ática, 2003.

POSSENTI, S. Por que (Não) Ensinar Gramática na Escola. Campinas: Mercado de Letras, 2008.

SCHERRE, M. M. P. Doa-se Lindos Filhotes de Poodle. 2. ed. São Paulo: Parábola, 2005.

VERÍSSIMO, L. F. O Gigolô das Palavras. 1 ed. São Paulo: L&PM Editores, 1996.

No comments: