Guilherme Rodrigues
Ele acabara de acordar, ouviu seu corpo estalar ao espreguiçar-se.
Logo abriu e janela, uma linda manhã. Era possível ver pequeninos
pontos de luz dos raios solares aterrissando como penas pelas
superfícies. Os passarinhos cantarolavam e voavam de um lado para o
outro. A garganta contraindo e esticando para cantar, as asas
dobrando e se abrindo, o vento contornando os delicados corpinhos.
Então ele saiu para caminhar. Sentiu seu corpo, a respiração, a
mobilidade, o movimento das pernas e dos braços, o caminhar. Era o
dia de cores tão nítidas e mais vivas que havia visto. Observava
cada momento, visão e audição apuradas, a cada passo o chão fofo
gramado emitia barulhinhos, o vento passava pelas árvores fazendo-as
dançar, alegremente.
Sentou-se para contemplar uma flor. Uma cor tão sublime quanto o
nascer do sol ou o entardecer. As pétalas aveludadas, de uma maciez
única, cobertas de minúsculas cerdas. Um aroma de causar terno
desfalecer, mas, ao mesmo tempo, revigorante. De repente, um zumbido
veio ao seu ouvido, era uma abelha com seu bater de asas demasiado
rápido, um pouso preciso, sua ação objetiva e delicada de coletar
pólen. Esfregando as patinhas uma na outra, lambendo os estames. Um
trabalho de paciência. Depois voou mais uma vez. Zum! E sumiu no
horizonte azul.
Um pouco abaixo, num arbusto, encontrou uma aranha, com longas
pernas finas desajeitadas e ligeiras, tecendo a teia com esmero e
cuidado, fazia com rapidez. O mundo e as múltiplas possibilidades. A
infinitude da vida. A destreza aracnídea para tecer uma teia com
perfeição, geometricamente calculada. A melhor tecelã que o mundos
poderia ter criado, parecia uma máquina ou a avó com seu tricô
todo laboriosa. Em alguns minutos sua rede estava pronta.
Ele estava sentado de pernas cruzadas, fechou os olhos, a respiração
aquietou-se, a brisa tocou-lhe a face, esvoaçou-lhe o cabelo, ouviu
com mais nitidez a canção daquele dia, o farfalhar das árvores, o
chilrear dos pássaros, o rechinar dos insetos. O olor do dia chegou
às suas narinas. O mundo conversava, trazia as mensagens de muito
longe pelo vento e se completava com os cantos dos pássaros e
insetos. O garoto apenas sorria.
Devagar abriu os olhos e se deparou com o horizonte, via o que
jamais havia visto, o vazio que separava ele de outras coisas, na
verdade, era cheio, cheio de energia, cheio de vida, cheio de muitas
cores, cheio de cheiro. O céu ganhava novas tonalidades, azul
escuro, branco, laranja, vermelho, rosa, amarelo... Era um quadro
colorido a cada instante com vivas cores.
Levantou-se para abraçar tudo aquilo, em êxtase foi caminhando
cambaleando, alegre, os pés arrastando. Já não andava mais,
flutuava. O suave vento tratava de lhe dar a direção e ia como uma
folha que se desprende da árvore, rodopiando, indo e vindo de um
lado para o outro até beijar o chão. E seus pés davam longos e
leves passos para mais uma vez ganhar altitude e planar.
E então, aos poucos, anoiteceu, as estrelas foram surgindo uma a
uma, uma noite toda iluminada. A lua cheia. As corujas chilreavam nas
árvores e voavam pelos campos. Ele foi levemente caminhando até
chegar à casa da namorada, e num banco de uma praça enluarado
deu-lhe o melhor beijo até aquele momento.
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