Wednesday, November 28, 2012

A Vida mais Vivida

Guilherme Rodrigues

Ele acabara de acordar, ouviu seu corpo estalar ao espreguiçar-se. Logo abriu e janela, uma linda manhã. Era possível ver pequeninos pontos de luz dos raios solares aterrissando como penas pelas superfícies. Os passarinhos cantarolavam e voavam de um lado para o outro. A garganta contraindo e esticando para cantar, as asas dobrando e se abrindo, o vento contornando os delicados corpinhos.


Então ele saiu para caminhar. Sentiu seu corpo, a respiração, a mobilidade, o movimento das pernas e dos braços, o caminhar. Era o dia de cores tão nítidas e mais vivas que havia visto. Observava cada momento, visão e audição apuradas, a cada passo o chão fofo gramado emitia barulhinhos, o vento passava pelas árvores fazendo-as dançar, alegremente.

Sentou-se para contemplar uma flor. Uma cor tão sublime quanto o nascer do sol ou o entardecer. As pétalas aveludadas, de uma maciez única, cobertas de minúsculas cerdas. Um aroma de causar terno desfalecer, mas, ao mesmo tempo, revigorante. De repente, um zumbido veio ao seu ouvido, era uma abelha com seu bater de asas demasiado rápido, um pouso preciso, sua ação objetiva e delicada de coletar pólen. Esfregando as patinhas uma na outra, lambendo os estames. Um trabalho de paciência. Depois voou mais uma vez. Zum! E sumiu no horizonte azul.

Um pouco abaixo, num arbusto, encontrou uma aranha, com longas pernas finas desajeitadas e ligeiras, tecendo a teia com esmero e cuidado, fazia com rapidez. O mundo e as múltiplas possibilidades. A infinitude da vida. A destreza aracnídea para tecer uma teia com perfeição, geometricamente calculada. A melhor tecelã que o mundos poderia ter criado, parecia uma máquina ou a avó com seu tricô todo laboriosa. Em alguns minutos sua rede estava pronta.

Ele estava sentado de pernas cruzadas, fechou os olhos, a respiração aquietou-se, a brisa tocou-lhe a face, esvoaçou-lhe o cabelo, ouviu com mais nitidez a canção daquele dia, o farfalhar das árvores, o chilrear dos pássaros, o rechinar dos insetos. O olor do dia chegou às suas narinas. O mundo conversava, trazia as mensagens de muito longe pelo vento e se completava com os cantos dos pássaros e insetos. O garoto apenas sorria.

Devagar abriu os olhos e se deparou com o horizonte, via o que jamais havia visto, o vazio que separava ele de outras coisas, na verdade, era cheio, cheio de energia, cheio de vida, cheio de muitas cores, cheio de cheiro. O céu ganhava novas tonalidades, azul escuro, branco, laranja, vermelho, rosa, amarelo... Era um quadro colorido a cada instante com vivas cores.

Levantou-se para abraçar tudo aquilo, em êxtase foi caminhando cambaleando, alegre, os pés arrastando. Já não andava mais, flutuava. O suave vento tratava de lhe dar a direção e ia como uma folha que se desprende da árvore, rodopiando, indo e vindo de um lado para o outro até beijar o chão. E seus pés davam longos e leves passos para mais uma vez ganhar altitude e planar.

E então, aos poucos, anoiteceu, as estrelas foram surgindo uma a uma, uma noite toda iluminada. A lua cheia. As corujas chilreavam nas árvores e voavam pelos campos. Ele foi levemente caminhando até chegar à casa da namorada, e num banco de uma praça enluarado deu-lhe o melhor beijo até aquele momento.

No comments: