Guilherme Augusto Rodrigues
Aquele rapaz sentado à mesa do bar tinha me chamado à atenção. Principalmente por tomar um refrigerante de uva! Poderia tomar qualquer coisa, mas refrigerante de uva era o mais barato do mercado! Isso já seria suficiente para muitas mulheres desistirem logo de cara. Prova de que é um pobretão falido.
Tinha o olhar sereno de um sábio. Era calmo e transparecia ter lido vários livros, conhecedor de muitas coisas. Achei que poderia tomar o refrigerante por gosto. Uma mente revolucionária, talvez. Ir na contramão de todos ou fazer algo que todos querem fazer, mas ninguém faz.
Usava óculos com lentes redondinhas, projetando sua visão mais à frente. Vestia roupas simples, nada de marca, como pude perceber. E assim mesmo não perdeu a elegância. Também nada de moda. Personalidade. As roupas simples deram-lhe um toque a mais.
Seus braços fortes, suas mãos bonitas segurando o copo com a firmeza que se deve pegar uma mulher.
Discretamente, fiquei olhando e tomando meu suco, lançando olhares sexy e quando olhasse faria um velado (mas não tanto) sinal.
Ele olhou algumas vez, mas, admito, tive vergonha e desviei o olhar. Situações assim me deixa toda sem jeito. Agora tomo coragem para o segundo plano.
Dei mais um tempo e pude refletir: ele me atraiu porque prestei atenção nos detalhes, fui além do refrigerante de uva. Uma mulher se fizesse o que fiz logo se interessaria. Ainda mais com um topete jogado ao vento. Bem poderia ser um aviador. Olhando tudo de cima.
Tive a idéia de pedir um cigarro:
– Com licença, você teria um cigarro?
– Não fumo, moça.
– Ah... Queria tanto fumar...
Dito isto, o rapaz saiu da mesa. Em seguida voltou com um maço de cigarros.
– Que gentileza! Que fofura! Muito obrigado!
“Droga! Agora tenho que fumar.”
Eu não gostei. Gostaria... Se eu fumasse, mas foi realmente muito gentil. Outras poderiam tê-lo chamado de trouxa.
Para retribuir, tinha que fumar. Abri o maço com dificuldade e até quebrei minha unha. Ele olhou, prestava atenção nas minhas mãos desajeitadas para abrir o maço. Talvez percebera que eu não levava a menor afinidade com o cigarro.
– Até hoje não inventaram um maço fácil de abrir – eu disse com uma risada forçada tentando disfarçar.
– É... Você pode se sentar, se quiser.
¬– Obrigada... Você... trabalha por aqui? É aviador?
– Hahaha... Que criatividade!
¬– Seu topete não deixa enganar – disse e sendo espremida por um muro.
¬– Eu não sou aviador, não. Deve ser muito bom. Na verdade, trabalho na livraria na outra quadra.
Um palpite certo!
– Hum... Vende livros. Eu adoro ler.
– Recomendarei bons livros quando for. O que você faz?
– Trabalho na loja de roupas “Vestir-se”, uma quadra pra lá.
– Do lado oposto de mim. Qual seu nome?
– Mariana. E o seu?
– Fernando...
– Quando precisar de roupas, você sabe, lá tem de diversos tipos.
Ele já estava impaciente de me olhar gesticular com o cigarro para lá e para cá, falar e não acendê-lo, tanto que nem agradeceu pelo convite. Pedi um cigarro à garçonete.
– Coff... Coff... Coff...
E com a cara vermelha, cuspi a fumaça.
– Engasguei – disse muito sem graça.
Ele queria que eu fumasse para ter a prova.
– Por que você faz isso?
– Isso o quê? – tentei me esquivar.
– Você não fuma.
– Sim, eu fumo.
Ele olhou sério e desaprovador.
– Eu só queria... Me aproximar de você... E conversar, te conhecer... ¬– disse entristecida.
Então, pegou na minha mão e afagou-a.
A Surpresa
Depois daquele dia, marcamos de nos encontrarmos, na semana seguinte, na sorveteria “Bola de Neve”, a melhor da cidade.
Fazia um tempo fresco e ensolarado, eu já esperava. Cheguei dez minutos mais cedo, como de costume. Nesse tempo comecei a observar ao meu redor. Uns onze metros à frente, uma família, pai, mãe, filho e filha. Crianças pequenas. O menino, que era dois anos mais velho que a menina, estava com a cara inteirinha lambuzada de sorvete e mergulhava seu boneco nele. A mãe gritando. A menina chorava e dizia querer pastel, não sorvete. E a mãe gritando. Enquanto o pai tomava o seu sorvete sossegadamente e olhava o movimento na rua. E a mãe gritando. No lado interno, no canto, tinha uma mulher gorda que estava na sua terceira tigela. Tomava desesperadamente e completamente lambuzada, mãos, rosto, barriga e até a ponta do nariz. Era cômico. Na mesa encostada à parede, duas amigas conversavam sobre os garotos da escola e se deliciavam com enormes copos de milk-shake.
Fernando apareceu e me assustei. Nem pude ver a cara do homem quando tomou o sorvete com sal que um garotinho tinha posto.
¬– ¬Olá! Achei que não viesse mais.
Ele sorriu puramente e me beijou a bochecha. Tive a impressão de já ter visto esse sorriso tão doce.
Logo pedimos sorvete. Eu, Montanha Negra, ele, Céu Estrelado.
– Nos dias de hoje é difícil conhecer pessoas como nos conhecemos. Num bar no centro da cidade não é o melhor lugar. Seria normal numa festa, na faculdade...
– É... Mas você forçou.
Dei de ombros.
– Você não teria me visto.
Ele pensou e enfim, disse:
– Talvez... Sempre morou aqui?
– Nasci aqui. Vivi até os seis anos. Fiz alguns amigos nesse tempo, mas acabei perdendo contato. Depois minha família se mudou para ficar mais unida. E voltei faz um mês e meio. Retornei às origens. A cidade mudou tanto todos estes anos.
– Que ótimo... – disse, diminuindo a intensidade, com cara de assustado ou que não entendeu nada – Eu era um de seus amigos. Lembro-me do seu rosto, seus olhos... Seus cabelos...
– Não pode ser! – disse perplexa– Bem, achei já ter visto seu sorriso doce. Nunca me esqueci.
¬– Quanta felicidade te reencontrar! E só agora nos demos conta disso!
Os sorvetes tinham chegado. E trocamos colheradas como velhos amigos.
Como foi a sua vida lá?
– Minha família toda é de lá. Senti muita saudade daqui e aos poucos a família e os novos amigos foram amenizando essa carencia. Mas nunca me esqueci deste lugar. Tanto que deu certo de voltar. Agora faço jornalismo.
– Naturalmente. Sempre me lembro daquela época com nostalgia. Nem me lembro como você era, seu jeito, seu temperamento... Mas jornalismo combina com você.
Que Máximo!
Acabamos por estender o encontro até o jantar. Jovem estudante que sabe cozinhar, e bem!
Fechamos a porta.
O Horizonte
...Tinha saído de uma floresta e me deparado com o Sol em todo seu esplendor. Uma imensidão ao meu redor e um belo horizonte inteirinho só para mim. Campos verdejantes que a relva dançava sob a batuta do Senhor Vento e as aves bailavam de um lado para o outro suavemente em incríveis acrobacias...
A campainha tocou. Eu estava esparramada no sofá vendo de ponta-cabeça o céu azul pela janela. Era a Carol, uma amiga que conheci no primeiro dia de faculdade. Parecíamos velhas amigas e começamos a nos ver todos os dias desde então.
– Olá! Como vai? Que cara de sono é essa?
– Um amigo meu veio aqui ontem e fizemos um jantar. Amigo de infância.
– Amigo de infância, hein... Deu aquele beijo que deveria ter dado anos atrás.
– Pare de brincar – disse com firmeza e pude contar como nos reencontramos. Ela insistia em dizer que omiti alguma parte, mas era tudo.
– Depois que ele serviu uma bandeja do seu conhecimento ficou toda encantada.
– Era um amor infantil e ingênuo. Todo mundo tem. É normal. Vamos dar uma volta pela avenida? Esta um dia tão bonito – puxei-a pelo braço e fomos.
Nos finais de semana, a avenida fica cheia de pessoas que vão caminhar, comer e beber algo ou apenas se divertir com os amigos.
Nós andávamos lentamente. Carol ia tagarelando sozinha. Eu não lhe dava ouvidos e não queria que ela estivesse ali. Estava absorta em meus pensamentos.
O destino é algo predeterminado. Nós não o escolhemos, ele que faz nossas vidas. Jamais imaginaria que reencontraria Fernando e ele menos ainda. Mudei de cidade. E o destino chega para nos inquirir, refletir. É uma segunda chance de fazermos o que deveríamos ter feito e não fizemos por medo, insegurança, porque não tivemos tempo ou porque ele quis assim. Podemos consertar, fazer como planejamos ou deixar escapar mais uma vez e nos arrependermos para sempre.
...Vi no meio daquelas planícies relvadas Fernando surgir. Nos olhávamos felizes e determinados, enfim, juntos!
– Mariana, vamos embora?
– Hã? Falou comigo?
– Perguntei se podemos ir embora.
– Ah... Sim. Vamos.
De agora em diante, está história terá uma continuação todo dia 12 de cada mês, junto com o blog da SAMIZDAT. Aguardem!
Tinha o olhar sereno de um sábio. Era calmo e transparecia ter lido vários livros, conhecedor de muitas coisas. Achei que poderia tomar o refrigerante por gosto. Uma mente revolucionária, talvez. Ir na contramão de todos ou fazer algo que todos querem fazer, mas ninguém faz.
Usava óculos com lentes redondinhas, projetando sua visão mais à frente. Vestia roupas simples, nada de marca, como pude perceber. E assim mesmo não perdeu a elegância. Também nada de moda. Personalidade. As roupas simples deram-lhe um toque a mais.
Seus braços fortes, suas mãos bonitas segurando o copo com a firmeza que se deve pegar uma mulher.
Discretamente, fiquei olhando e tomando meu suco, lançando olhares sexy e quando olhasse faria um velado (mas não tanto) sinal.
Ele olhou algumas vez, mas, admito, tive vergonha e desviei o olhar. Situações assim me deixa toda sem jeito. Agora tomo coragem para o segundo plano.
Dei mais um tempo e pude refletir: ele me atraiu porque prestei atenção nos detalhes, fui além do refrigerante de uva. Uma mulher se fizesse o que fiz logo se interessaria. Ainda mais com um topete jogado ao vento. Bem poderia ser um aviador. Olhando tudo de cima.
Tive a idéia de pedir um cigarro:
– Com licença, você teria um cigarro?
– Não fumo, moça.
– Ah... Queria tanto fumar...
Dito isto, o rapaz saiu da mesa. Em seguida voltou com um maço de cigarros.
– Que gentileza! Que fofura! Muito obrigado!
“Droga! Agora tenho que fumar.”
Eu não gostei. Gostaria... Se eu fumasse, mas foi realmente muito gentil. Outras poderiam tê-lo chamado de trouxa.
Para retribuir, tinha que fumar. Abri o maço com dificuldade e até quebrei minha unha. Ele olhou, prestava atenção nas minhas mãos desajeitadas para abrir o maço. Talvez percebera que eu não levava a menor afinidade com o cigarro.
– Até hoje não inventaram um maço fácil de abrir – eu disse com uma risada forçada tentando disfarçar.
– É... Você pode se sentar, se quiser.
¬– Obrigada... Você... trabalha por aqui? É aviador?
– Hahaha... Que criatividade!
¬– Seu topete não deixa enganar – disse e sendo espremida por um muro.
¬– Eu não sou aviador, não. Deve ser muito bom. Na verdade, trabalho na livraria na outra quadra.
Um palpite certo!
– Hum... Vende livros. Eu adoro ler.
– Recomendarei bons livros quando for. O que você faz?
– Trabalho na loja de roupas “Vestir-se”, uma quadra pra lá.
– Do lado oposto de mim. Qual seu nome?
– Mariana. E o seu?
– Fernando...
– Quando precisar de roupas, você sabe, lá tem de diversos tipos.
Ele já estava impaciente de me olhar gesticular com o cigarro para lá e para cá, falar e não acendê-lo, tanto que nem agradeceu pelo convite. Pedi um cigarro à garçonete.
– Coff... Coff... Coff...
E com a cara vermelha, cuspi a fumaça.
– Engasguei – disse muito sem graça.
Ele queria que eu fumasse para ter a prova.
– Por que você faz isso?
– Isso o quê? – tentei me esquivar.
– Você não fuma.
– Sim, eu fumo.
Ele olhou sério e desaprovador.
– Eu só queria... Me aproximar de você... E conversar, te conhecer... ¬– disse entristecida.
Então, pegou na minha mão e afagou-a.
A Surpresa
Depois daquele dia, marcamos de nos encontrarmos, na semana seguinte, na sorveteria “Bola de Neve”, a melhor da cidade.
Fazia um tempo fresco e ensolarado, eu já esperava. Cheguei dez minutos mais cedo, como de costume. Nesse tempo comecei a observar ao meu redor. Uns onze metros à frente, uma família, pai, mãe, filho e filha. Crianças pequenas. O menino, que era dois anos mais velho que a menina, estava com a cara inteirinha lambuzada de sorvete e mergulhava seu boneco nele. A mãe gritando. A menina chorava e dizia querer pastel, não sorvete. E a mãe gritando. Enquanto o pai tomava o seu sorvete sossegadamente e olhava o movimento na rua. E a mãe gritando. No lado interno, no canto, tinha uma mulher gorda que estava na sua terceira tigela. Tomava desesperadamente e completamente lambuzada, mãos, rosto, barriga e até a ponta do nariz. Era cômico. Na mesa encostada à parede, duas amigas conversavam sobre os garotos da escola e se deliciavam com enormes copos de milk-shake.
Fernando apareceu e me assustei. Nem pude ver a cara do homem quando tomou o sorvete com sal que um garotinho tinha posto.
¬– ¬Olá! Achei que não viesse mais.
Ele sorriu puramente e me beijou a bochecha. Tive a impressão de já ter visto esse sorriso tão doce.
Logo pedimos sorvete. Eu, Montanha Negra, ele, Céu Estrelado.
– Nos dias de hoje é difícil conhecer pessoas como nos conhecemos. Num bar no centro da cidade não é o melhor lugar. Seria normal numa festa, na faculdade...
– É... Mas você forçou.
Dei de ombros.
– Você não teria me visto.
Ele pensou e enfim, disse:
– Talvez... Sempre morou aqui?
– Nasci aqui. Vivi até os seis anos. Fiz alguns amigos nesse tempo, mas acabei perdendo contato. Depois minha família se mudou para ficar mais unida. E voltei faz um mês e meio. Retornei às origens. A cidade mudou tanto todos estes anos.
– Que ótimo... – disse, diminuindo a intensidade, com cara de assustado ou que não entendeu nada – Eu era um de seus amigos. Lembro-me do seu rosto, seus olhos... Seus cabelos...
– Não pode ser! – disse perplexa– Bem, achei já ter visto seu sorriso doce. Nunca me esqueci.
¬– Quanta felicidade te reencontrar! E só agora nos demos conta disso!
Os sorvetes tinham chegado. E trocamos colheradas como velhos amigos.
Como foi a sua vida lá?
– Minha família toda é de lá. Senti muita saudade daqui e aos poucos a família e os novos amigos foram amenizando essa carencia. Mas nunca me esqueci deste lugar. Tanto que deu certo de voltar. Agora faço jornalismo.
– Naturalmente. Sempre me lembro daquela época com nostalgia. Nem me lembro como você era, seu jeito, seu temperamento... Mas jornalismo combina com você.
Que Máximo!
Acabamos por estender o encontro até o jantar. Jovem estudante que sabe cozinhar, e bem!
Fechamos a porta.
O Horizonte
...Tinha saído de uma floresta e me deparado com o Sol em todo seu esplendor. Uma imensidão ao meu redor e um belo horizonte inteirinho só para mim. Campos verdejantes que a relva dançava sob a batuta do Senhor Vento e as aves bailavam de um lado para o outro suavemente em incríveis acrobacias...
A campainha tocou. Eu estava esparramada no sofá vendo de ponta-cabeça o céu azul pela janela. Era a Carol, uma amiga que conheci no primeiro dia de faculdade. Parecíamos velhas amigas e começamos a nos ver todos os dias desde então.
– Olá! Como vai? Que cara de sono é essa?
– Um amigo meu veio aqui ontem e fizemos um jantar. Amigo de infância.
– Amigo de infância, hein... Deu aquele beijo que deveria ter dado anos atrás.
– Pare de brincar – disse com firmeza e pude contar como nos reencontramos. Ela insistia em dizer que omiti alguma parte, mas era tudo.
– Depois que ele serviu uma bandeja do seu conhecimento ficou toda encantada.
– Era um amor infantil e ingênuo. Todo mundo tem. É normal. Vamos dar uma volta pela avenida? Esta um dia tão bonito – puxei-a pelo braço e fomos.
Nos finais de semana, a avenida fica cheia de pessoas que vão caminhar, comer e beber algo ou apenas se divertir com os amigos.
Nós andávamos lentamente. Carol ia tagarelando sozinha. Eu não lhe dava ouvidos e não queria que ela estivesse ali. Estava absorta em meus pensamentos.
O destino é algo predeterminado. Nós não o escolhemos, ele que faz nossas vidas. Jamais imaginaria que reencontraria Fernando e ele menos ainda. Mudei de cidade. E o destino chega para nos inquirir, refletir. É uma segunda chance de fazermos o que deveríamos ter feito e não fizemos por medo, insegurança, porque não tivemos tempo ou porque ele quis assim. Podemos consertar, fazer como planejamos ou deixar escapar mais uma vez e nos arrependermos para sempre.
...Vi no meio daquelas planícies relvadas Fernando surgir. Nos olhávamos felizes e determinados, enfim, juntos!
– Mariana, vamos embora?
– Hã? Falou comigo?
– Perguntei se podemos ir embora.
– Ah... Sim. Vamos.
De agora em diante, está história terá uma continuação todo dia 12 de cada mês, junto com o blog da SAMIZDAT. Aguardem!
1 comment:
uma excelente tarde de domingo e uma visita aqui abração
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