Thursday, October 27, 2011

Nascer do Sol ao Entardecer


Guilherme Rodrigues


Ela abriu os olhos ao fechá-los. Encontrava-se num campo relvado à beira de um grande lago. Nunca estivera diante de tão bela paisagem de cores tão vivas. Era entardecer. Algumas árvores distantes no horizonte. Felicidade imensa encheu-lhe o peito, a vida é boa! Ajoelhada, observava a paisagem com lágrimas alegres nos olhos. De repente, algo começou a surgir do chão, a brotar. Algumas folhas se desdobravam como num balé, depois pequenas bolinhas vermelhas apareceram e tornaram-se morangos. Foram os morangos mais deliciosos e mais saborosos que havia comido. O paladar havia voltado. Mas o morangueiro não parava de crescer, já havia atingido a altura da sua cabeça, ajoelhada. E crescia e crescia e crescia. Logo já era uma árvore, os morangos então enormes tornaram-se maçãs tão vermelhas quanto o céu do pôr-do-sol. Foram as maçãs mais deliciosas e mais saborosas que havia comido. Começou a caminhar vagarosamente. 



Uma brisa gostosa percorreu-lhe o rosto. Tão depressa um coelho corria ao seu lado, branco como a neve. E então, veio a seu encontro seu cachorrinho que partira há muitos e muitos anos. Já esquecido, coitado. Uma felicidade de pulos e sorrisos no reencontro. Mais e mais animais juntaram-se a eles. Uma porção de pássaros, beija-flor, tico-tico, tié-sangue, bem-te-vi, até um gavião e uma águia apareceram, batendo suas enormes asas e planando por um longo tempo. Todos cantarolando pelo céu em acrobacias estonteantes. Um gato, um guaxinim, um esquilo, um texugo e um cavalo branco de longas crinas, saltitando, correndo como o vento. Muitos outros animais, uma legião.

Adiante uma sublime música encantava a atmosfera. Podia ser ouvida do lugar mais remoto por qualquer um que estivesse disposto a enxergar e a ouvir. Eram as árvores cantando, vozes tão sublimes. Continuou caminhando sorridente pelo extenso gramado e onde pisava surgia pequenas flores que se estendiam pelo chão.

Ao longe, viu que um homem caminhava ao seu encontro. Não era tão jovem, nem tão velho quanto ela. Um rapaz de quase quarenta anos. Chegou mais perto e pôde reconhecer, com grande surpresa, era seu pai que voltara. Jovem como nos tempos de quando ela era uma garotinha. Poderia perguntar-se porque rejuvenescera, mas não fazia sentido, era assim que se lembrava dele, forte, bonito, cheio de vida, feliz. E mais uma explosão de felicidades e lágrimas. Sufocaram-se em abraços.

Lembraram-se dos momentos felizes que os dois viveram juntos. Quando ele a esperava no portão da escola, quando brincavam juntos, quando ele contava histórias todas as noites, quando apanhavam amoras no pé, distante da civilização, lugar tranquilo. Dos dias doentes que tratou com tanto carinho dela. Lembraram-se também das broncas, dos puxões de orelhas que ele dava, mas hoje ela entendia, com razão, tudo isso a fez tornar uma mulher forte, determinada. Tudo foi zelo. E das tristezas. 

A cada passo que dava ela rejuvenescia alguns meses, depois, alguns anos. Porque sua alma e sua mente eram jovens, nunca envelheceram. Apenas o corpo definhara. Era novamente uma garota, porque nunca havia deixado de ser.

Nunca havia visto neve, até ali. Do céu claro e límpido do entardecer, caíram flocos de neves. Pareciam algodão, e eram doces. No entardecer, o dia amanhecia, o sol não se punha, mas, nascia.

Tudo, enfim, ficou tão mais nítido, aprendera a caminhar como um coelho, a ser doce como a gato, a ser sábia e forte como um cavalo, a ver como uma águia e a voar como tal, bateu as asas e voou ao infinito.

No comments: