Guilherme Rodrigues
Você acorda 6h52, atrasado e já cansado. Gostaria de ficar ali para sempre, a cama está quentinha e lá fora está um frio de matar, mas precisa sustentar a família. Vai ser mais um dia daqueles. Se arruma com extrema e estabanada rapidez, veste as calças, a camisa e a gravata, que fica torta. Lava o rosto, penteia o cabelo, escova os dentes. Toma um café muito mal tomado. E vai trabalhar.
Logo de manhã já tem um trânsito infernal. Corre que nem um doido, corta a frente de um e de outro. E quando se tem pressa há um monte de lesmas à frente. Se tivesse um carro maior passava por cima. Buzina! Xinga todo mundo e depois de uma odisseia chega, finalmente, ao trabalho.
No trabalho passa sem notar o porteiro que acordou muito mais cedo, ganha muito menos, tem uma vida muito mais complicada, mas está muito mais feliz que você. No elevador, sem olhar no rosto das pessoas, mal as cumprimenta.
Durante o expediente, mais problemas, clientes que não pagam, clientes que reclamam, fornecedores que atrasam. Muitos relatórios para assinar. Prazos vencendo. Que vontade de jogar tudo pelos ares. Mas você tem uma família para sustentar, filhos e uma esposa para amar. Todavia você não tem tempo para essas coisas tolas. Precisa trabalhar mais, ganhar mais dinheiro. E trata mal os funcionários, quer matar aquele cliente, mas precisa do dinheiro dele. Quer encher o chefe de porradas. Mas não pode.
Volta para casa para almoçar. A esposa toda carinhosa e amável vem concersar com você, perguntar como foi o dia, afagá-lo. As crianças tão dóceis, tão inocentes, cheias de amor e com enormes sorrisos, pulam em você e o abraçam, dizer querer ir ao circo no final de semana. E estressado, de saco cheio de tudo, ranzinza, fica bravo com eles, responde mal, grita, berra.
Tem raiva de tudo e de todos, quer socar, esmurrar, quebrar o pescoço dos outros, passar por cima deles, mas você é muito controlado, controladíssimo, e não faz nada disso.
De novo no trabalho enfrentando mais problemas. Um dia muito cheio. Trabalha com pressa. Não tem tempo para nada. Você está afogado em papeladas, assinando nem sabe o quê, escreve sabe lá o quê. E continua respondendo mal todo mundo.
Você sempre mantém essa cara feia, fechada. Um ódio a ponto de explodir, pronto para atacar até um pobre gatinho. Nem um sorriso. Nem uma palavra cordial. Os outros são inferiores.
Fim do trabalho! Na volta você enfrenta um trânsito pior que o da vinda. Os carros não andam. Você buzina, xinga, quer passar por cima. O sinal que não abre. Que vontade de descer do carro e quebrar a cara daquele que te xingou também. Mas você é controlado. Veja quantas vezes quis matar, socar, dar porrada, quebrar o pescoço do outro e não fez nada. Puro autocontrole.
Finalmente em casa! Você está acabado, morto, e agora pode descansar tranquilo e relaxar. Sua esposa vem conversar, calmamente, tentando compreender por que tratou todos mal no almoço, e você mais uma vez lança armas ferinas. As crianças ficam assustadas, tristes, choram. E você manda todo mundo à merda e vai deitar. Tenta dormir e não consegue. Fica irritado, bravo, revirando na cama, pensando. Manda três remédios goela abaixo e dorme.
Você acorda 7h11 atrasadíssimo e cansado...
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