Wednesday, July 13, 2011

A Tribo

Guilherme Rodrigues


Quando as planícies eram vastas, florestas brotavam, búfalos e bisões pastavam e quando as montanhas quase tocavam o céu, nossa tribo reinava por todas estas terras. Contam que éramos uma tribo de milhares de pessoas vivendo pacificamente. Todos nós tínhamos um papel a desenvolver: caçar, plantar, cultivar, cuidar das crianças e das casas e tantos outros afazeres. Nossas terras eram fartas e produtivas, o Grande Espírito passeava tranquilamente por elas e nos abençoava todos os dias. Nós O reverenciávamos sempre, todas as horas do dia. Cada minuto, cada folhinha que brotava e cada ser eram sagrados para nós.


Nossa tribo vivia em pleno contato com a Mãe Natureza. Éramos livres para caminhar, apreciar o céu, o sol, o horizonte, rios e lagos. O céu e os animais, nossos aliados, contavam segredos e como deveríamos agir em determinadas situações. Aventurávamo-nos em desbravar caminhos desconhecidos desta terra misteriosa. Quando as provisões de alimentos não eram mais suficientes, rumávamos para outras terras e por ali ficávamos até se esgotar e novamente mudávamos. Tínhamos tribos rivais e apenas entrávamos em conflito para garantir nossa comida, nossa sobrevivência.

Num daqueles dias em que o sol brilha palidamente querendo nos dizer algo, inesperadamente, correram homens montados a cavalos, selvageria e brutalidade abraçaram-nos como nunca. O terror estava feito. E botando fogo nas nossas casas e com um artefato nunca antes visto por nós, foram, magicamente, assassinando um a um. Os que sobraram, pouco a pouco, também morreram de tristeza ou fome. Era possível ver seus olhos faiscarem de ódio por nós sem nunca terem nos vistos antes. Nossas crianças, tão alegres, foram dominadas pelo medo e friamente mortas. 

Reagimos, mas eles eram muitos e apesar de também sermos muitos, não estávamos preparados. Era um combate muito desigual.

Eram os que são chamados por muitos de colonizadores. Homens sem coração destruindo nossa cultura e impondo a sua. Invadiram nossa aldeia e acabaram com tudo o que levamos anos para construir. Destruíram nossos rios, lagos e florestas.

Plantamos muito naquela terra abençoada. Frutos suculentos. Grandes conhecimentos. Verdadeiras sabedorias. Nossa cultura jamais foi destruída. Voltamos, porém, nunca partimos, se assim podemos dizer. Agora, dia a dia, com muito suor, pomos em prática. A batalha se aproxima.

É com muita dor no coração que anunciamos uma guerra, sem sangue, para nós, e sem violência. Mas de muita tristeza para quem um dia nos matou. Mais uma vez estaremos todos reunidos como antes para caminharmos sobre as montanhas, banharmo-nos nos rios e lagos, descansar às sombras das árvores, cantar e dançar em volta da fogueira.

O que aconteceu um dia para nós, acontecerá para eles. Suas casas cairão, seus irmãos, filhos e pais morrerão nos seus braços. O que foi que construíram? Agora lhes servem? Tudo desabará, em chamas.

Estes homens perdidos e sem coração vivem para si. Pobres de espírito não dão valor para o que tem e para o que um dia foram. Não lhes faremos mal. Não é de nossa natureza.

Somos todos irmãos!

À noite fria, triste e sem estrelas, fecha-se o céu em escuridão. Silêncio. As nuvens movimentam-se tão rápido quanto podem. Há algo diferente. E então, trovões e relâmpagos rasgam o céu. O caos e o terror se apresentam. O rufar dos tambores começam. Juntamo-nos em círculo e iniciamos nossa dança, envolvendo-os.

Fogos, vendavais, tormentas, terremotos e maremotos por todos os lados. Uma gritaria ensurdecedora se inicia. Correria. Pânico. Seus pilares começam a cair. Tudo que lhes prendia e que havia de mais valioso está ao chão.

Os cavalos correm em meio a eles, relinchando, pulando em falso, coiceando. E a dança tem de continuar. Vem a chuva para amenizar a dor e, ao mesmo tempo, intensificá-la. Os tambores rufam ainda mais forte, causando-lhes tortura. Somos grandes porque conhecemos nossa grandeza e eles, tão pequenos porque assim se enxergam, nos veem grandes, reconhecem-nos, dançando a seu redor.

A escuridão não cessa. Há sangue e dor por todos os lados. Um a um, rapidamente, vai morrendo. Assistimos com tristeza a todo este episódio que escreveram determinados com tanto afinco. Os mares se agitam cada vez mais. Ondas nunca antes vistas avançam engolindo continentes em uma bocada só.

Estendemos nossas mãos para quem nos pede ajuda. Evocamos as forças aliadas, as forças dos ventos, dos mares. Chamamos os espíritos da natureza, os deuses e os animais, cavalos alados, unicórnios, fênix, búfalos, bisões e dragões para auxiliá-los.

Os puros de coração que estavam, calmamente, aguardando passar o caos, são retirados dali. Sobem aos céus e, enfim, despertam, emanando sua luz. Como são belos. Reconhecem, então, as estrelas, a imensidão dos céus e veem que mundo magnífico está lá baixo, esperando, em breve, seu retorno.

A cada batida do tambor sobem mais pessoas. E outras tantas caem ao chão, desfalecidas, sem saber que, ao acordarem, nem se recordarão de onde estiveram, da vida que tiveram e, assim, poderão recomeçar, sem lembranças, sem memória, outra história.

Depois de tantos sofrimentos, tanta tristeza, o mundo começa a se apaziguar. Os terremotos param, os mares amenizam, recolhendo suas ondas, surgindo novos continentes, belas terras, as trovoadas se calam.

Os raios de sol rasgam o céu, espantam as pesadas e negras nuvens para longe. O mundo apresenta o seu brilho de outrora. As aves alçam seus voos, pairam delicadamente sobre o ar. A brisa fresca e doce canta tranquila junto com as árvores. As cachoeiras renascem despejando sua água cristalina sobre os rios. Os oceanos sossegados acariciam as orlas. A montanhas crescem assustadoramente por todos os lugares, dando-lhes beleza. Os búfalos; os bisões; os leões; os tigres; os cavalos e tantos outros animais voltam a correr livres pelos campos.

No alto da montanha, com o vento cochichando em nossos ouvidos e nos saudando, unidos, todos juntos, pitamos nosso cachimbo admirando o horizonte, o pôr-do-sol.

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