Guilherme Augusto Rodrigues
Certa manhã, acordei com um passarinho cantando à minha janela. Naturalmente, eu teria espantado-o e voltado a dormir, mas senti de vê-lo cantar. Abri a janela, ele voou e voltou a pousar próximo a ela. Observei-o por um tempo.
Não satisfeito em cantar, voava e tornava a pousar. Fez isso sete vezes. Percebi que me convidava a passear. Era um lindo dia, fresco e agradável, com o céu bem azulzinho.
Voava baixo, próximo a mim. Fomos no jardim ao lado de casa onde raramente ando e quando passo, nem noto. Ele pousou numa roseira com rosas grandes, vermelhas, aveludadas e de olor suave, daquele que acaricia o coração, depois voou para uma enorme árvore também florida, cuidadosamente toda pincelada de amarelo e, mais tarde, deu um longo rasante quase encostando a barriga no chão verdinho, verdinho.
À sombra da árvore florida de amarelo, parecia gritar, batia suas asinhas, rodopiava e pulava no chão. Estava me chamando para sentar.
Pouso na minha mão. Olhava-me com um olhar sério, como se estivesse chamando minha atenção. O olhar me penetrava, vendo meu interior. Seus olhos, tão miúdos, se tornaram grandes.
Começou a cantar, a melodia de extraordinária variação relaxou todo meu corpo, me senti leve e renovado, em paz. Não ia mais parar de cantar, nem me importei, podíamos ficar dias ali sentados, um olhando pro outro, apreciando o dia e o cântico dele.
Ainda hipnotizado pelo canto, comecei a reparar sua plumagem. As penas mudavam de tom conforme a incidência da luz. Era inacreditável a quantidade de cores, passei até a duvidar da natural coloração que, à primeira vez, pensei ser marrom e preta. Olhei a perfeição de cada pena, desenhadas com fino lápis. Vi sua musculatura e os pés muito bem trabalhados.
Parou de cantar, de repente. Ficou olhando para mim mais uns dois minutos e voou para o céu em direção ao sol e o perdi na deslumbrante luz.
Havia alguma coisa naqueles olhos que nunca mais me permitiu ser o mesmo...
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